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A Foto que Não Estava no Plano de Voo

Na véspera de Natal de 1968, a tripulação da Apollo 8 teve poucos segundos para achar o rolo colorido e registrar a Terra subindo atrás da Lua

Um magazine de filme de 70 milímetros em metal escovado flutuando ao lado de uma câmera fotográfica prateada sem lente, no interior acolchoado e cinza de uma cápsula espacial.

O magazine de colorido que passou de mão

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A lista de alvos fotográficos da Apollo 8 cabia num cartão preso dentro da cabine, e nenhuma linha dela apontava para a Terra. Cratera, mar de lava, ponto de pouso candidato para as missões seguintes: a câmera estava a bordo para inventariar a Lua, quadro a quadro, com hora marcada.

A missão inteira tinha nascido de uma troca de última hora. Em agosto de 1968 o módulo lunar atrasou, e a NASA substituiu o voo previsto por uma volta em torno da Lua com a tripulação que estivesse pronta. Era o primeiro Saturn V a levar gente e a primeira vez que alguém sairia da órbita da Terra.

O que aquele voo devolveu ao mundo, e o mundo guardou, não estava em nenhuma linha do cartão. Foi um quadro improvisado, com o rolo errado dentro da câmera, feito num intervalo curto demais para qualquer decisão pensada, catalogado depois como AS08-14-2383.

A imagem ganhou nome sem registro em cartório nenhum: Earthrise. E ganhou o estatuto que espalha uma fotografia pelo planeta sem freio. Feita por um oficial americano em serviço, entrou em domínio público no instante do disparo e segue aberta em alta resolução, de graça.

Duas histórias vieram coladas nela desde então. A primeira diz que a fotografia fundou o movimento ambiental. A segunda diz quem apertou o botão, e trocou de resposta conforme o entrevistado durante quase cinquenta anos.

As duas podem ser conferidas. A primeira tem calendário, lei publicada e uma cronologia de campanha que começa bem antes de dezembro de 1968. A segunda tem gravação de voz da cabine, filme de dezesseis milímetros rodando a um quadro por segundo e uma reconstrução feita com dados de altimetria lunar.

Comece pela manobra de rolagem executada com setenta e cinco horas de voo, quando o comandante girou a nave para uma orientação nova e a janela lateral, que até ali só tinha mostrado cinza, encheu de azul.

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I  A Foto Histórica do Dia

O rolo de colorido que passou de mão

Uma manobra de rolagem, uma janela que trocou de assunto e um magazine guardado longe da mão certa. Aqui está a ficha do disparo, da lente montada ao giro de noventa graus que a NASA aplicou antes de publicar.

William Anders, missão Apollo 8, 24 de dezembro de 1968, quarta órbita lunar, setenta e cinco horas e quarenta e sete minutos de voo. A câmera era uma Hasselblad 500EL com lente Zeiss de 250 milímetros, e o magazine acoplado nela estava carregado com filme preto e branco.

A nave voava com as janelas apontadas para a superfície, porque era ali que estavam os alvos do dia. Frank Borman girou o módulo de comando para a orientação do bloco de trabalho seguinte, e o horizonte lunar passou a atravessar a janela lateral de cima a baixo.

A Terra apareceu nesse giro. Ela não subiu de fato: quem se mexeu foi a nave. Para quem está parado na Lua, a Terra fica cravada no mesmo ponto do céu. O nascer da fotografia é efeito da órbita e só existe para quem passa.

Borman viu primeiro e disse em voz alta que ali estava a Terra vindo, e que era bonito. Anders respondeu que ninguém devia fotografar aquilo, porque não estava no programa. A frase saiu como piada e ficou gravada na fita de voz da cabine.

Em seguida veio a corrida. Anders pediu o filme colorido a Jim Lovell, que começou a procurar o magazine dentro da cabine enquanto a Terra continuava mudando de posição na moldura da janela.

O quadro que virou retrato do planeta não estava na lista de alvos, e a câmera na mão do fotógrafo estava carregada com preto e branco.

Antes da troca, um quadro em preto e branco foi feito. Ele está no acervo como AS08-13-2329, sem cor e com a Terra um pouco mais baixa no enquadramento.

Lovell achou o magazine, passou de mão, Anders trocou na câmera e disparou duas vezes. Os dois quadros coloridos entraram no arquivo como AS08-14-2383 e AS08-14-2384. O primeiro é o que atravessou seis décadas.

A moldura que o mundo conhece também não é a que saiu do magazine. Com a nave rolada, o horizonte lunar corria na vertical e a Terra aparecia deitada de lado. A NASA girou a imagem noventa graus antes de distribuir.

Uma câmera de cinema Maurer de dezesseis milímetros estava presa na janela de acoplamento, rodando a um quadro por segundo durante a manobra. Ela registrou a mesma cena de outro ângulo, sem ninguém operando.

A tripulação voltou em 27 de dezembro. O filme foi revelado e liberado para a imprensa nas primeiras semanas de 1969. O que veio depois tem data, lei publicada e número.

 
 

II  O Que Ela Mudou de Verdade

Do selo de seis centavos à EPA

A fotografia chegou às redações em janeiro de 1969. O primeiro Dia da Terra veio quinze meses depois, e a EPA abriu no fim daquele mesmo ano. A ordem encaixa bem demais, e a coincidência é o próprio motivo para conferir a conta.

O que a imagem fez de imediato dá para medir em papel impresso. Saiu na capa de jornais americanos e europeus, entrou em livro escolar e virou pôster.

Em maio de 1969 ela virou selo dos correios dos Estados Unidos, de seis centavos, com a primeira frase do Gênesis impressa ao lado, a mesma que a tripulação tinha lido ao vivo da órbita lunar na noite do disparo.

O texto mais citado sobre ver a Terra de longe saiu antes de a fotografia existir em papel. Archibald MacLeish escreveu para a primeira página do New York Times de 25 de dezembro de 1968, respondendo à transmissão da véspera.

Ver a Terra como ela de fato é, pequena, azul e bonita naquele eterno silêncio em que flutua, é ver a nós mesmos como passageiros da Terra juntos.

Archibald MacLeish, Riders on Earth Together, The New York Times, 1968

A legislação que entra na conta da fotografia tem calendário próprio. A lei nacional de política ambiental foi assinada em 1º de janeiro de 1970. O primeiro Dia da Terra reuniu cerca de vinte milhões de pessoas em 22 de abril, e a EPA começou a operar em 2 de dezembro.

O gatilho declarado por quem organizou não foi a Lua. O senador Gaylord Nelson anunciou o Dia da Terra em setembro de 1969, citando o vazamento que sujou o canal de Santa Bárbara em janeiro daquele ano, mais de três milhões de galões.

A cronologia do movimento também não começa em 1968. Silent Spring, de Rachel Carson, é de 1962. A lei das áreas selvagens protegidas é de 1964. O rio Cuyahoga pegou fogo em Cleveland em junho de 1969.

O detalhe que desmonta a lenda é anterior à missão. Em 1966, Stewart Brand distribuía botões perguntando por que ninguém tinha visto ainda uma fotografia do planeta inteiro. O Whole Earth Catalog estreou no outono de 1968, meses antes da Apollo 8, com uma imagem de satélite na capa.

A demanda existia antes da oferta, e a inversão muda o argumento. O movimento não ganhou consciência ao ver a fotografia. Ele já procurava a imagem do planeta inteiro e recebeu uma melhor do que a encomendada.

O efeito documentado é outro, e continua grande. Earthrise deu ao movimento a imagem única que faltava, e passou a aparecer em cartaz de campanha, capa de relatório e material escolar. Galen Rowell a chamou de fotografia ambiental mais influente já feita.

Dentro da NASA a mudança foi concreta. A Terra deixou de ser alvo não programado e entrou no plano das missões seguintes. Em 7 de dezembro de 1972, a tripulação da Apollo 17 fez o retrato do planeta cheio conhecido como Blue Marble.

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III  Depois da Foto

O filme de 16 mm que decidiu a briga

A ficha do acervo da NASA credita AS08-14-2383 a William Anders desde a catalogação. Frank Borman passou décadas dizendo em entrevistas que a fotografia era dele, sem sinal de estar inventando.

A confusão tinha base material. Três homens numa cabine do tamanho de um carro pequeno, duas câmeras circulando de mão em mão e um episódio que durou menos de dois minutos.

A fita de voz grava as frases, não os dedos. Ela mostra quem falou o quê, e nenhuma fala diz quem estava com qual câmera em qual instante.

A saída veio de fora da cabine, quarenta e cinco anos depois. Em 2013, Ernie Wright, do estúdio de visualização científica da NASA, cruzou o rolo de dezesseis milímetros que rodava sozinho na janela de acoplamento, a fita de voz e o mapa de altimetria da Lua levantado pela sonda Lunar Reconnaissance Orbiter.

O método é simples de descrever. Cada quadro do filme mostra um pedaço do horizonte lunar, e com o relevo da Lua medido em alta resolução cada pedaço corresponde a uma única posição e a um único instante da nave.

O resultado foi uma reconstrução segundo a segundo, com a posição da nave, a direção de cada janela e a hora de cada disparo.

Em 2018, o jornalista Andrew Chaikin publicou na revista Air & Space, do Smithsonian, a leitura completa dela. A conclusão fecha a briga sem transformar ninguém em mentiroso: o quadro em preto e branco foi feito por Borman, e os dois coloridos por Anders.

Os dois estavam certos e falavam de fotografias diferentes. Borman registrou a Terra subindo atrás da Lua. Anders registrou a mesma cena em cores, e a cor foi o que fez a imagem viajar.

Anders resumiu a missão numa frase que repetiu por décadas em entrevistas: foram até ali para explorar a Lua, e o mais importante que fizeram foi descobrir a Terra.

Ele saiu da NASA em 1969 e nunca mais voou. Presidiu a comissão reguladora nuclear dos Estados Unidos, foi embaixador na Noruega e terminou como executivo de uma indústria de defesa. Partiu em junho de 2024, aos noventa anos, pilotando um avião antigo.

Borman também não voltou ao espaço. Assumiu a presidência da Eastern Air Lines em 1975 e ficou onze anos no cargo. Partiu em novembro de 2023, aos noventa e cinco anos, dez anos depois da reconstrução.

Os negativos originais da Apollo 8 seguem em câmara fria no centro espacial de Houston. As digitalizações estão abertas no acervo público, sem cobrança e sem autorização, do quadro em preto e branco aos dois coloridos.

A fotografia que ensinou o planeta a se ver por inteiro não estava no plano de voo, saiu com o rolo errado na câmera e levou quarenta e cinco anos para ter o crédito confirmado por medição.

"Quanto de uma fotografia histórica pertence a quem apertou o botão, e quanto pertence ao acaso que abriu a janela?"

 
 
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Segundo o texto, qual astronauta procurou dentro da cabine e passou o magazine de filme colorido para Anders trocar na câmera?

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