|
A ficha do acervo da NASA credita AS08-14-2383 a William Anders desde a catalogação. Frank Borman passou décadas dizendo em entrevistas que a fotografia era dele, sem sinal de estar inventando.
A confusão tinha base material. Três homens numa cabine do tamanho de um carro pequeno, duas câmeras circulando de mão em mão e um episódio que durou menos de dois minutos.
A fita de voz grava as frases, não os dedos. Ela mostra quem falou o quê, e nenhuma fala diz quem estava com qual câmera em qual instante.
A saída veio de fora da cabine, quarenta e cinco anos depois. Em 2013, Ernie Wright, do estúdio de visualização científica da NASA, cruzou o rolo de dezesseis milímetros que rodava sozinho na janela de acoplamento, a fita de voz e o mapa de altimetria da Lua levantado pela sonda Lunar Reconnaissance Orbiter.
O método é simples de descrever. Cada quadro do filme mostra um pedaço do horizonte lunar, e com o relevo da Lua medido em alta resolução cada pedaço corresponde a uma única posição e a um único instante da nave.
O resultado foi uma reconstrução segundo a segundo, com a posição da nave, a direção de cada janela e a hora de cada disparo.
Em 2018, o jornalista Andrew Chaikin publicou na revista Air & Space, do Smithsonian, a leitura completa dela. A conclusão fecha a briga sem transformar ninguém em mentiroso: o quadro em preto e branco foi feito por Borman, e os dois coloridos por Anders.
Os dois estavam certos e falavam de fotografias diferentes. Borman registrou a Terra subindo atrás da Lua. Anders registrou a mesma cena em cores, e a cor foi o que fez a imagem viajar.
Anders resumiu a missão numa frase que repetiu por décadas em entrevistas: foram até ali para explorar a Lua, e o mais importante que fizeram foi descobrir a Terra.
Ele saiu da NASA em 1969 e nunca mais voou. Presidiu a comissão reguladora nuclear dos Estados Unidos, foi embaixador na Noruega e terminou como executivo de uma indústria de defesa. Partiu em junho de 2024, aos noventa anos, pilotando um avião antigo.
Borman também não voltou ao espaço. Assumiu a presidência da Eastern Air Lines em 1975 e ficou onze anos no cargo. Partiu em novembro de 2023, aos noventa e cinco anos, dez anos depois da reconstrução.
Os negativos originais da Apollo 8 seguem em câmara fria no centro espacial de Houston. As digitalizações estão abertas no acervo público, sem cobrança e sem autorização, do quadro em preto e branco aos dois coloridos.
A fotografia que ensinou o planeta a se ver por inteiro não estava no plano de voo, saiu com o rolo errado na câmera e levou quarenta e cinco anos para ter o crédito confirmado por medição.
"Quanto de uma fotografia histórica pertence a quem apertou o botão, e quanto pertence ao acaso que abriu a janela?"
|