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A história de como a foto foi feita ficou famosa num texto assinado pelo próprio fotógrafo. Saiu em 1942, na revista Twice a Year, com o título How The Steerage Happened, trinta e cinco anos depois da travessia.
O texto entrega uma cena redonda: o desconforto com a primeira classe, a caminhada até a proa, o reconhecimento imediato das formas, a corrida até a cabine, a chapa única e a certeza de ter feito algo definitivo.
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Eu via formas relacionadas umas com as outras. Via um quadro de formas e, por baixo delas, o sentimento que eu tinha sobre a vida.
Alfred Stieglitz, How The Steerage Happened, Twice a Year, 1942
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Os documentos e o calendário contam uma versão menos redonda.
Beaumont Newhall, historiador da fotografia, olhou para as sombras da imagem e notou que a proa aparece voltada para o oeste, e não para o leste, como estaria em pleno cruzamento do Atlântico.
Também não há sinal de vento na cena, algo improvável com o casco em movimento. A conclusão dele é que a chapa foi feita com o navio parado, ancorado em Plymouth, e não no meio do oceano no terceiro dia de mar.
O calendário da carreira discorda da história do reconhecimento imediato. O negativo ficou guardado, só foi publicado em 1911, quatro anos depois, e só apareceu numa exposição em 1913.
Richard Whelan, biógrafo do fotógrafo, aponta o verão europeu daquele ano: quem acabou de fazer a própria obra-prima não passa as semanas seguintes deprimido. A leitura dele é que a chapa foi posta de lado e só ganhou tamanho depois.
Edward Steichen registrou ainda outra versão da descoberta. Segundo ele, foi o pintor Max Weber quem, em 1911, chamou atenção para as qualidades cubistas do quadro, e o elogio de Picasso veio na sequência.
A publicação de 1911 tem números fechados. A Camera Work número 36, de outubro daquele ano, foi dedicada inteira a fotos dele, com dezesseis fotogravuras impressas em papel japonês, e a passarela da terceira classe entrou como prancha IX.
A revista rodava 1.000 exemplares por número, custava US$ 2 avulsa e US$ 4 a assinatura anual. Era o veículo mais caro e mais bem impresso da fotografia da época.
A guinada para a arte moderna cobrou o preço na base de leitores. A publicação tinha começado em 1903 com 68 assinaturas pagas antes do primeiro número, e em 1912, ano seguinte ao número 36, estava com 304 assinantes pagos.
No último número, em 1917, restavam 37 assinantes pagos, e a tiragem tinha caído de 1.000 para 500 exemplares.
Em 1915 ele repetiu a aposta. A revista 291 dedicou os números 7 e 8 à mesma fotografia, numa fotogravura grande, e ele mandou imprimir 500 exemplares extras contando com a procura.
Nenhum dos 500 foi vendido. Ao fechar a galeria, em 1917, ele se desfez do estoque acumulado da 291 inteira e recebeu US$ 5,80 de um comprador de papel velho.
Em outubro de 2008, uma daquelas fotogravuras de 1915 foi vendida em leilão por US$ 110.500. Mesmo papel, mesma tinta, mesma passarela apontada para o lado que a legenda insiste em inverter.
"Quantas das fotos que você acha que conhece estão contando o contrário do que a legenda diz?"
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