In partnership with

Foto Histórica   Foto Histórica
ED 010

A Foto de Chegada que Era uma Despedida

Em junho de 1907, no convés do Kaiser Wilhelm II a caminho de Bremen, Alfred Stieglitz gastou a última chapa da caixa na terceira classe

Passarela branca separando dois níveis da terceira classe no convés de um transatlântico em 1907, com um homem de chapéu de palha redondo no nível de cima.

The Steerage, Alfred Stieglitz, 1907

▼
 

Existe uma fotografia que atravessou mais de um século com a legenda errada colada embaixo. Ela aparece em livro didático, em documentário sobre imigração e em parede de museu, quase sempre apresentada como o retrato da chegada à América.

A cena explica a confusão. Uma passarela branca corta o quadro no meio. Em cima, homens de chapéu e paletó, debruçados na amurada. Embaixo, mulheres de lenço na cabeça, criança no colo, roupa estendida num varal improvisado, um mastro rasgando o céu.

Nada ali contradiz a leitura de primeira vista. Não há placa, não há data visível, não há bandeira à mostra. O que existe é gente amontoada em terceira classe, e terceira classe, naquele começo de século, era sinônimo de travessia de imigrante.

O ano da imagem reforça o mal-entendido. Em 1907 Ellis Island registrou 1.004.756 entradas, o maior número da história da ilha, e em 17 de abril daquele ano 11.747 pessoas foram processadas em um único dia.

O país fechou o ano fiscal com cerca de 1,3 milhão de imigrantes admitidos, marca que só cairia em 1990. Qualquer chapa feita num convés de terceira classe em 1907 tinha tudo para virar ilustração de chegada.

A rota do navio conta outra coisa. O casco que aparece na fotografia estava a caminho da Europa, e não voltando de lá. As pessoas do convés de baixo estavam deixando os Estados Unidos.

Ninguém sabia quantas eram. O governo americano ainda não contava quem ia embora, e a obrigação de listar os estrangeiros que saíam do país só passou a valer semanas depois daquela travessia.

A diferença entre chegar e voltar não é detalhe de rodapé. Ela troca o assunto da imagem mais reproduzida sobre a imigração americana e muda a história de cada pessoa que aparece dentro do quadro.

A foto nasceu de uma caminhada de poucos minutos no convés de primeira classe, de uma corrida até a cabine e de uma única chapa de vidro que ainda sobrava na caixa.

Continue lendo ↓

 
 

I  A Foto Histórica do Dia

A última chapa no convés de cima

O navio não era um cargueiro qualquer de emigrante. O Kaiser Wilhelm II, da companhia alemã Norddeutscher Lloyd, tinha sido lançado em Stettin em 12 de agosto de 1902 e era o maior navio registrado na Alemanha na época.

Kaiser Wilhelm II, junho de 1907, travessia de Nova York para Bremen. Quatro chaminés, 19.361 toneladas de arqueação, 215 metros de casco e velocidade máxima de 23,5 nós, o bastante para tomar a Blue Riband da concorrência em 1904.

A lotação dividia o mundo em três andares. Eram 775 lugares de primeira classe, 343 de segunda e 770 na terceira, além de 962 homens de tripulação. A rota parava em Plymouth e em Cherbourg antes de encostar em Bremen.

Alfred Stieglitz viajava no andar de cima, com a mulher, Emmeline, e a filha, Kitty. A passagem de primeira classe tinha sido escolha dela, e ele passou a travessia inteira incomodado com a companhia da mesa e do salão.

Ele tinha 43 anos, era o nome mais influente da fotografia americana, editor da revista Camera Work e dono de uma galeria na Quinta Avenida.

No terceiro dia de mar, andou até onde o convés de primeira classe permitia chegar, na direção da proa, e parou para olhar para baixo.

O que ele viu do convés de cima

Uma passarela branca com corrimão de corrente separava dois níveis de terceira classe. Em cima, os homens. Embaixo, as famílias, os cestos, a roupa lavada e uma escada inclinada para o lado contrário ao da chaminé.

No meio do quadro, um chapéu de palha redondo. Mais adiante, um par de suspensórios brancos cruzado nas costas de um homem, formas redondas de maquinaria e um mastro cortando o céu na diagonal.

Ele não voltou à cabine para buscar um assunto. Voltou para buscar a câmera, uma Graflex, com medo de que a cena inteira se desmanchasse antes de ele chegar de volta à amurada.

Na caixa restava um único chassi com chapa virgem. Nenhuma reserva, nenhuma alternativa de enquadramento, nenhuma chance de repetir com meio passo para a esquerda.

A cena continuava no lugar quando ele voltou. A exposição foi uma só.

Uma chapa, uma exposição, nenhuma segunda tentativa. A confirmação de que a imagem tinha ficado boa só chegaria depois do desembarque, do outro lado do Atlântico.

Revelar a bordo não era opção prática numa cabine de passageiro. O negativo atravessou o oceano fechado no chassi, e o laboratório ficou para a Europa.

O que a chapa registrou, além da geometria, foi um deslocamento com direção definida. A direção é a parte que a legenda dos cem anos seguintes ignorou.

 
 

II  O Que Ela Mudou de Verdade

A rota do navio contra a legenda

A fotografia mais usada para ilustrar a chegada de imigrantes à América registra o movimento contrário. O navio ia para leste, e cada pessoa naquele convés estava saindo dos Estados Unidos.

A rota é dado de registro, não de interpretação. O Kaiser Wilhelm II fazia a linha entre Bremen e Nova York, e a travessia de junho de 1907 saiu do porto americano com destino ao porto alemão.

Quem viajava na terceira classe naquele sentido não estava indo procurar trabalho na América. Estava voltando de lá.

Quem viajava de volta na terceira classe

Uma parte era de operário com visto temporário. O boom de construção americano importava marceneiro, entalhador, assentador de mármore e pedreiro por dois anos, e devolvia o trabalhador quando a obra terminava.

Outra parte era de trabalhador sazonal, que cruzava o oceano na temporada de serviço e voltava a tempo da colheita da família. Os italianos que faziam o trajeto nos dois sentidos ganharam nome próprio em casa: ritornati.

As estimativas de retorno da geração que desembarcou entre 1900 e 1920 variam de 30% a 50%, conforme a região e o ano.

Havia ainda os recusados na inspeção. Cerca de 2 em cada 100 candidatos eram barrados em Ellis Island, por doença, por falta de dinheiro ou por alguma categoria de exclusão, e voltavam por conta da companhia que os trouxe.

O tamanho exato desse fluxo não existia em papel nenhum. A lei de imigração assinada em fevereiro de 1907 passou a exigir das companhias a lista dos estrangeiros que deixavam o país, e a estatística de saída só começou a ser apurada no ano fiscal seguinte.

Na semana da exposição, portanto, aquele convés era um movimento sem número oficial. A câmera registrou um fluxo que o Estado ainda não media.

A legenda errada não nasceu de má fé. Ela nasceu da demanda: quem precisava ilustrar a grande imigração encontrava, num único quadro, o rosto exato do assunto.

O outro efeito da imagem aparece longe da estatística. Até então uma fotografia se defendia pelo assunto, pelo drama humano que trazia dentro do quadro.

O que passou a circular a partir dela foi outro critério: a foto podia ser defendida pela relação entre as formas. A passarela reta contra a chaminé inclinada, o círculo do chapéu contra o triângulo do mastro.

A leitura formal tem um efeito colateral. Quando a conversa sobre uma foto começa e termina na geometria, a legenda deixa de ser conferida, e o navio pode passar um século inteiro navegando para o lado errado.

Museus e acervos registram a data, o navio e o destino na ficha técnica da peça. A linha que circula fora da ficha é a que continua invertida.

Quem banca a edição de hoje

The #1 Roth Conversion Mistake That Costs Retirees

Most people missed the first Roth conversion window. History is offering a rare second chance — but not a long one.

With today's tax rates extended, IRA Millionaires have a brief stretch of historically low brackets left. When it closes, the math changes: higher rates, bigger required distributions, and fewer conversion opportunities each year you wait.

Craig Wear, CFP®, has spent 15+ years helping more than 3,000 families with $1M+ in IRAs plan Roth conversions — helping them avoid a projected $10B+ in lifetime taxes. His new book, Roth Conversion Reset, is the step-by-step playbook:

Lock in today's low rates
Avoid RMD surprises at 73
Protect your spouse from survivor taxes
Keep more for your heirs

The book is free — no credit card, no shipping. The full PDF lands in your inbox in minutes.

O clique de apoio mantém a edição gratuita

 
 

III  Depois da Foto

O relato que ele publicou 35 anos depois

A história de como a foto foi feita ficou famosa num texto assinado pelo próprio fotógrafo. Saiu em 1942, na revista Twice a Year, com o título How The Steerage Happened, trinta e cinco anos depois da travessia.

O texto entrega uma cena redonda: o desconforto com a primeira classe, a caminhada até a proa, o reconhecimento imediato das formas, a corrida até a cabine, a chapa única e a certeza de ter feito algo definitivo.

Eu via formas relacionadas umas com as outras. Via um quadro de formas e, por baixo delas, o sentimento que eu tinha sobre a vida.

Alfred Stieglitz, How The Steerage Happened, Twice a Year, 1942

Os documentos e o calendário contam uma versão menos redonda.

Beaumont Newhall, historiador da fotografia, olhou para as sombras da imagem e notou que a proa aparece voltada para o oeste, e não para o leste, como estaria em pleno cruzamento do Atlântico.

Também não há sinal de vento na cena, algo improvável com o casco em movimento. A conclusão dele é que a chapa foi feita com o navio parado, ancorado em Plymouth, e não no meio do oceano no terceiro dia de mar.

O calendário da carreira discorda da história do reconhecimento imediato. O negativo ficou guardado, só foi publicado em 1911, quatro anos depois, e só apareceu numa exposição em 1913.

Richard Whelan, biógrafo do fotógrafo, aponta o verão europeu daquele ano: quem acabou de fazer a própria obra-prima não passa as semanas seguintes deprimido. A leitura dele é que a chapa foi posta de lado e só ganhou tamanho depois.

Edward Steichen registrou ainda outra versão da descoberta. Segundo ele, foi o pintor Max Weber quem, em 1911, chamou atenção para as qualidades cubistas do quadro, e o elogio de Picasso veio na sequência.

A publicação de 1911 tem números fechados. A Camera Work número 36, de outubro daquele ano, foi dedicada inteira a fotos dele, com dezesseis fotogravuras impressas em papel japonês, e a passarela da terceira classe entrou como prancha IX.

A revista rodava 1.000 exemplares por número, custava US$ 2 avulsa e US$ 4 a assinatura anual. Era o veículo mais caro e mais bem impresso da fotografia da época.

A guinada para a arte moderna cobrou o preço na base de leitores. A publicação tinha começado em 1903 com 68 assinaturas pagas antes do primeiro número, e em 1912, ano seguinte ao número 36, estava com 304 assinantes pagos.

No último número, em 1917, restavam 37 assinantes pagos, e a tiragem tinha caído de 1.000 para 500 exemplares.

Em 1915 ele repetiu a aposta. A revista 291 dedicou os números 7 e 8 à mesma fotografia, numa fotogravura grande, e ele mandou imprimir 500 exemplares extras contando com a procura.

Nenhum dos 500 foi vendido. Ao fechar a galeria, em 1917, ele se desfez do estoque acumulado da 291 inteira e recebeu US$ 5,80 de um comprador de papel velho.

Em outubro de 2008, uma daquelas fotogravuras de 1915 foi vendida em leilão por US$ 110.500. Mesmo papel, mesma tinta, mesma passarela apontada para o lado que a legenda insiste em inverter.

"Quantas das fotos que você acha que conhece estão contando o contrário do que a legenda diz?"

 
 
Guia Foto Histórica · Novo
Capa do guia O Ano Escondido

O Ano Escondido

A Datação por Camadas que descobre o ano, o lugar e o nome na foto de família que ninguém soube explicar.

Quero o guia →
 
Quiz da edição

Na travessia de junho de 1907 retratada por Stieglitz, para onde o Kaiser Wilhelm II navegava?

ANova York, chegando com imigrantes recém-desembarcados
BBremen, partindo de Nova York com passageiros que deixavam os Estados Unidos
CSouthampton, numa escala rumo à Inglaterra
DLiverpool, na disputa pela Blue Riband

Veja o ranking de quem mais acerta →

 
Sua avaliação

Como foi a edição de hoje?

🎞️🎞️🎞️🎞️🎞️  ótima 🎞️🎞️🎞️🎞️  boa 🎞️🎞️🎞️  ok 🎞️🎞️  ruim 🎞️  péssima
 
Recomendação de Newsletter
Mistérios Milenares

Mistérios Milenares

Toda noite, 20:20 na sua caixa: o enigma, as evidências e a pergunta que ninguém respondeu. Com o rigor que você sempre quis e nunca achou em português.

Quero receber →

 
Sua jornada
Nível {{nivel | 0}} · {{rank_nome | Visitante}} {{xp | 0}} XP
 

Faltam {{xp_falta | 5}} XP pro Nível {{nivel_prox | 1}}

Responda o quiz de hoje: +3 XP

{{edicoes_lidas | 1}}
edições lidas
{{cliques | 0}}
cliques
{{avaliacoes_feitas | 0}}
avaliações

Top {{top_pct | 100}}%: posição {{pos_mes | 0}} na comunidade Foto Histórica nesse mês

Quero subir meu nível →

 
 
 

Toda foto tem um nome atrás.

Foto Histórica

FOTO HISTÓRICA

A história por trás da foto

💬 WhatsApp·📣 Anuncie·✍️ Newsletter