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A Ficha de Alphonse Bertillon, Frente e Perfil na Mesma Escala

Em 1888, um escrivão da polícia de Paris fotografou o preso de frente e de perfil, para medir o rosto e não para enfeitá-lo

Ficha antropométrica de Alphonse Bertillon, 1891: retratos de perfil e de frente com as medidas

Ficha de Alphonse Bertillon, Paris, 1891

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A 48 graus e 51 minutos de latitude norte, na Île de la Cité, a ilha do Sena onde Paris começou, o sótão do Palácio da Justiça fica a menos de 500 metros das torres de Notre-Dame. Dali, em 1879, um escrivão de 26 anos via pela janela os telhados de zinco e, na mesa, pilhas de fichas de presos escritas à mão.

As fichas diziam pouco. Estatura mediana, rosto oval, nariz comum. Todo ladrão preso pela segunda vez dava outro sobrenome, e a polícia não tinha como provar que era o mesmo homem da primeira prisão.

A prefeitura guardava também retratos de detentos, feitos por fotógrafos de estúdio. Cada um usava a própria luz, a própria distância e a pose de sempre: o preso de três quartos, às vezes de chapéu, às vezes sorrindo. Duas fotos do mesmo rosto, tiradas em anos diferentes, pareciam de dois estranhos.

O escrivão era filho de um médico estatístico e cresceu entre compassos e tabelas de antropologia. Desconfiou de um detalhe: o esqueleto adulto muda pouco. O comprimento da cabeça, a orelha e o dedo médio de um homem de 30 anos seriam os mesmos aos 40.

Em 1882, convenceu o prefeito de polícia Jean Camecasse a deixá-lo testar a ideia por três meses. Em 20 de fevereiro de 1883, perto do prazo, mediu um detido que se dizia Dupont, abriu a gaveta das medidas e achou um certo Martin, preso semanas antes. Era o mesmo homem.

Dois anos depois, a França aprovou a lei de 1885 que mandava o reincidente para o degredo na Guiana. Saber quem voltava à cadeia virou assunto de Estado, e o escrivão ganhou um serviço próprio na prefeitura.

Faltava a fotografia obedecer à mesma disciplina das medidas. A seção I mostra a ficha em que ele aplicou o método ao próprio rosto, em 1891, e o que cada parte do cartão registra.

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I  A Foto Histórica do Dia

O escrivão na própria cadeira

A foto do topo é a ficha antropométrica (cartão de identificação pelas medidas do corpo) de Alphonse Bertillon, nascido em Paris em abril de 1853 e chefe do serviço de identificação da Prefeitura de Polícia. Datada de 14 de maio de 1891, segue o modelo que ele padronizou em 1888 para cada detido.

Frente e perfil

No alto do cartão estão dois retratos lado a lado: à esquerda, o perfil direito, com a orelha inteira à mostra; à direita, o rosto de frente. Os dois têm a mesma escala, um sétimo do tamanho natural, para que um centímetro na cópia valesse sete no rosto.

O perfil servia à orelha. Bertillon considerava a orelha a parte mais estável e mais variada da cabeça, e o preso não conseguia disfarçá-la com barba, bigode ou corte de cabelo.

A cadeira de pose

Para chegar sempre à mesma escala, o serviço usava uma cadeira de pose (assento fixo, com apoio para a nuca), parada a uma distância marcada no chão diante da câmera. O detido sentava, encostava a cabeça no suporte e olhava para a lente.

Depois do primeiro disparo, o assento girava um quarto de volta, e a câmera registrava o perfil sem que ninguém tocasse na lente nem no foco. Luz difusa, fundo liso, sem chapéu e sem sorriso pedido.

O retrato deixava de agradar ao cliente. Servia ao arquivo, e qualquer funcionário, em qualquer ano, podia pôr duas fichas lado a lado e comparar nariz com nariz.

As medidas embaixo

Abaixo dos retratos vêm as onze medidas do método, anotadas em milímetros: estatura, envergadura (distância entre as pontas dos dedos com os braços abertos), busto sentado, comprimento e largura da cabeça, largura das maçãs do rosto, orelha direita, pé esquerdo, dedos médio e mínimo da mão esquerda e antebraço esquerdo.

O cartão traz ainda a cor da íris esquerda, escolhida numa tabela de tons, e as marcas particulares: cicatriz, tatuagem, pinta, dedo torto.

Bertillon fotografou o próprio rosto pelo mesmo método dos presos, de frente e de perfil, na escala de um sétimo.

A ficha não registra o motivo daquele retrato de maio de 1891. A hipótese mais provável é a demonstração, já que o serviço recebia policiais estrangeiros interessados no método, mas nenhum documento do cartão confirma.

A cópia digital vem do Criminocorpus, portal francês de história da justiça, e está em domínio público no Wikimedia Commons.

 
 

II  O Que Ela Mudou de Verdade

A câmera a dois metros do chão

O método ganhou o apelido de bertillonnage (bertilonagem, o sistema de Bertillon) e saiu de Paris depressa. Em 1887, a penitenciária de Joliet, em Illinois, adotou as medidas por iniciativa do diretor Robert McClaughry, e polícias da Europa e da América copiaram o cartão nos anos seguintes.

O ritual do medidor

Cada detido passava pela mesma sequência, na mesma ordem:

1. Sem casaco e sem sapatos, ficava de pé contra uma escala de parede, para a estatura.

2. Com os braços abertos, media a envergadura; sentado num banco, o busto.

3. Um compasso de pontas curvas tomava o comprimento e a largura da cabeça.

4. Um compasso menor media orelha, pé, dedos e antebraço.

5. Por último, a cadeira de pose e os dois retratos.

Com as medidas, o arquivo deixava de ser alfabético. As fichas eram divididas em pequena, média e grande para cada medida, em sequência, e o funcionário descia gaveta por gaveta até sobrarem poucas dezenas de cartões para conferir pela foto.

O retrato falado

Para o agente de rua, Bertillon criou o portrait parlé (retrato falado), um vocabulário fixo para descrever testa, nariz e orelha pela inclinação, pela altura e pela saliência. O policial decorava os termos e procurava o fugitivo na multidão pela descrição, sem carregar foto no bolso.

Uma frase atribuída a Bertillon nos cursos do retrato falado resume a aposta:

“O olho só vê aquilo para onde olha, e só olha para o que já está na mente.”

A frase justificava o treino. Sem vocabulário, o agente via um rosto qualquer; com ele, via um nariz de dorso côncavo e uma orelha de lóbulo colado.

A cena vista de cima

Bertillon levou a mesma disciplina ao local do crime. Montou a câmera num tripé alto, com a lente voltada para baixo, a cerca de dois metros do chão, e fotografava o corpo e o cômodo de cima, sempre da mesma altura.

A cópia saía colada num cartão com escalas impressas nas margens. Com elas, o perito tirava da foto, meses depois, a distância entre a porta e a cama ou o comprimento de uma mancha no assoalho.

A câmera a dois metros, apontada para baixo, transformava o chão da cena numa planta medida.

O Metropolitan Museum of Art, em Nova York, guarda um álbum de cenas de crime de Paris atribuído a ele, feito entre 1901 e 1908, com essas margens graduadas em cada folha.

Em 1892, o anarquista François Koenigstein, conhecido como Ravachol, foi preso depois de atentados a bomba em Paris. As medidas do serviço confirmaram a identidade dele contra uma ficha anterior, e os jornais fizeram de Bertillon uma celebridade.

 

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III  Depois da Foto

O polegar no vidro da Mona Lisa

Em 1894, Bertillon entrou no caso de Alfred Dreyfus, capitão do Exército francês acusado de espionagem para a Alemanha. Sem formação em grafologia (estudo da letra manuscrita), depôs como perito e sustentou que Dreyfus escrevera o bordereau (a lista de documentos entregue aos alemães) disfarçando a própria letra.

Dreyfus foi condenado e mandado para a Ilha do Diabo, na Guiana. O autor do bordereau era o major Ferdinand Walsin Esterhazy, e Dreyfus acabou reabilitado em 1906. A tese de Bertillon entrou para os manuais como exemplo de perícia errada.

O dedo de Scheffer

Nos anos 1890, o cartão ganhou um quadro para as impressões dos dedos da mão direita, como dado extra. No outono de 1902, num consultório dentário da rua do Faubourg Saint-Honoré, o empregado Joseph Reibel foi achado sem vida, e havia digitais no vidro de uma vitrine quebrada.

Bertillon fotografou o vidro, comparou as marcas com as fichas e chegou a Henri-Léon Scheffer, ladrão já fichado. Foi a primeira identificação na França por impressão digital deixada no local do crime.

A Mona Lisa, 1911

Em 21 de agosto de 1911, a Mona Lisa, de Leonardo da Vinci, sumiu do Louvre. O ladrão largou a moldura numa escada de serviço, com uma impressão de polegar no vidro.

Vincenzo Peruggia, vidraceiro italiano que tinha trabalhado no museu, estava fichado no serviço de Bertillon desde 1909. O arquivo, porém, era organizado pelas medidas do corpo, e ninguém conseguia procurar um cartão a partir de uma digital solta.

O polegar de Peruggia estava em Paris desde 1909, numa gaveta ordenada por centímetros de cabeça e de orelha.

Peruggia foi preso em Florença em dezembro de 1913, ao oferecer o quadro a um antiquário. A pintura voltou ao Louvre em janeiro de 1914. Bertillon morreu em Paris em 13 de fevereiro daquele ano, poucas semanas depois.

Nas décadas seguintes, as polícias trocaram as onze medidas pelas digitais, mais rápidas de colher e de arquivar. Os dois retratos ficaram: frente e perfil seguem como o padrão de foto de detido em delegacias do mundo inteiro.

No sótão da Île de la Cité, a 500 metros de Notre-Dame, a ficha de 14 de maio de 1891 guarda o escrivão de 1879 na escala de um sétimo, com a orelha direita à mostra, como ele exigia de cada preso.

 
 
Quiz da edição

No cartão que Bertillon padronizou em 1888, em qual escala os retratos de frente e perfil eram fotografados?

AUm décimo do tamanho natural
BTamanho natural, sem redução
CUm sétimo do tamanho natural
DUm quinto do tamanho natural

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