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A Fábrica de Bhopal Que Ninguém Desmontou

O galpão da Union Carbide continua de pé desde a noite de 3 de dezembro de 1984, e é ele que sobrou como documento reutilizável do caso

Vista externa da fábrica de pesticida da Union Carbide em Bhopal, Índia, com a tubulação aérea e o concreto manchado, fotografada por Martin Stott para o Bhopal Medical Appeal.

Fábrica da Union Carbide, Bhopal, Martin Stott

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A cerca de 500 metros de altitude, no bairro de Jai Prakash Nagar, a menos de dois quilômetros da estação ferroviária de Bhopal, um muro baixo separava as casas de uma fábrica de pesticida. Quem passava na calçada via tubulação aérea, uma torre de lavagem de gases e a tampa de concreto de três tanques enterrados no pátio. Na noite de 2 para 3 de dezembro de 1984, o que saiu dali desceu sobre os telhados, entrou pelas frestas das portas e alcançou a plataforma da estação.

A fábrica pertencia à Union Carbide India Limited e produzia o pesticida Sevin. Dentro do tanque 610 havia cerca de 40 toneladas de isocianato de metila, um líquido volátil que reage com água e vira gás em temperatura ambiente. Água entrou no tanque, a reação subiu a pressão, e a nuvem saiu pela válvula de alívio numa madrugada sem vento forte e com a cidade dormindo no mesmo nível do chão.

As primeiras câmeras chegaram de manhã, e eram indianas. Pablo Bartholomew e Raghu Rai fotografaram a cidade nas horas seguintes, cada um por conta própria. Bartholomew levou o World Press Photo do ano, o prêmio anual do fotojornalismo internacional, com o enterro de uma criança no escombro de terra solta, a mão de um adulto ainda afastando a areia do rosto dela. Rai fez a sua própria versão da mesma cena de enterro e, décadas depois, pediu publicamente que ela saísse de circulação.

As duas imagens ficaram onde nasceram: arquivo de agência, com licenciamento pago e uso autorizado caso a caso. Quem procura hoje uma fotografia do caso num acervo aberto não encontra nenhuma delas. Encontra o prédio vazio, fotografado anos depois por quem tinha interesse em manter o assunto visível, com licença que permite reproduzir a imagem em qualquer lugar. A primeira seção reconstrói essa fotografia: o que está no quadro, quem apertou o botão, em que condição ela pode ser usada e por que um galpão sem ninguém dentro virou o retrato oficial de uma noite com meio milhão de expostos.

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I  A Foto Histórica do Dia

O galpão que ninguém derrubou

A imagem que circula hoje em acervo aberto mostra a estrutura externa da fábrica da Union Carbide India Limited em Bhopal, sem pessoa nenhuma no quadro. Ela está no Wikimedia Commons com o título Union Carbide pesticide factory, Bhopal, India, 1985, creditada a Martin Stott pelo Bhopal Medical Appeal, a organização britânica que financia atendimento médico às vítimas da cidade. A licença é Creative Commons Attribution-ShareAlike, atribuição com compartilhamento igual, o que permite republicar a foto citando o autor.

O quadro é seco. Linhas de tubulação cortando o céu, uma escada metálica lateral, concreto manchado de chuva e vegetação subindo pelo pé das colunas. Não há fumaça, não há corpo e não há sinal de urgência. A fotografia registra uma planta industrial parada depois de ter sido despida: os componentes mais valiosos saíram do lugar, e o que sobrou ficou ao tempo.

O que está no quadro e o que não está

O tanque 610 não aparece nessa tomada externa, e ele existe em outra fotografia do mesmo acervo, feita em março de 2010 por Julian Nyča: um cilindro horizontal de aço no chão, entre mato alto, na área desativada. Ver os dois arquivos em sequência resolve a parte mecânica do caso. O tanque que liberou a nuvem continua no terreno, a poucos metros de onde estava na madrugada do acidente.

Falta no quadro tudo o que as imagens de 1984 tinham. O enterro fotografado por Pablo Bartholomew mostrava um rosto infantil coberto de terra até a altura dos olhos, e foi essa imagem que levou o caso às capas do mundo inteiro em janeiro de 1985. Raghu Rai, que integrava a Magnum, publicou a própria série sobre a cidade no livro Exposure: Portrait of a Corporate Crime, com a Greenpeace, em 2004.

A imagem mais forte do caso saiu do ar por decisão de quem a fez. A imagem que sobrou para uso livre é um prédio vazio, e ela pede que o leitor saiba de antemão o que aconteceu ali.

Raghu Rai declarou em entrevistas que a fotografia do enterro tinha sido usada demais, virado símbolo automático e deixado de provocar qualquer reação em quem a via, e por isso pediu formalmente que ela fosse retirada de circulação. O gesto é raro no ofício: um autor abrindo mão da própria imagem mais reproduzida porque ela tinha parado de funcionar como testemunho e passado a funcionar como decoração de campanha.

A fábrica segue em ruínas e abandonada, e aproximadamente 350 toneladas de resíduo tóxico estão armazenadas ali, acima do solo.

Bhopal Medical Appeal, descrição do arquivo no Wikimedia Commons, 2014

 
 

II  O Que Ela Mudou de Verdade

Quatrocentos e setenta milhões sem culpado

O número de vítimas do caso tem dois donos e duas contas. O governo de Madhya Pradesh reconhece 3.787 pessoas falecidas em consequência direta do vazamento. O próprio governo indiano, em processo na Suprema Corte da Índia, trabalhou com mais de 500 mil pessoas expostas ao gás naquela madrugada, número que sustentou o cálculo das indenizações.

O processo central foi resolvido por acordo, não por julgamento. Em fevereiro de 1989, a Suprema Corte da Índia homologou pagamento de 470 milhões de dólares pela Union Carbide Corporation ao governo indiano, encerrando as ações civis e criminais então em curso. A divisão do dinheiro entre as famílias levou anos nos tribunais locais e seguiu em disputa depois que a empresa já havia pagado.

A conta que a lei refez

O vazamento reescreveu legislação em dois países ao mesmo tempo. Nos Estados Unidos, o Congresso aprovou em 1986 o Emergency Planning and Community Right to Know Act, lei de planejamento de emergência e direito da comunidade à informação, que obriga a indústria a declarar quais substâncias tóxicas guarda e em que quantidade, com o dado aberto à vizinhança. Na Índia, saíram o Environment Protection Act de 1986, lei geral de proteção ambiental, e o Public Liability Insurance Act de 1991, que passou a exigir seguro obrigatório de quem manipula material perigoso.

Warren Anderson, presidente da Union Carbide Corporation, desembarcou em Bhopal em 7 de dezembro de 1984, foi detido, liberado sob fiança no mesmo dia e saiu do país. Nunca voltou para responder ao processo criminal. Em 1992, um tribunal de Bhopal o declarou fugitivo da justiça indiana, e os pedidos de extradição enviados aos Estados Unidos não foram atendidos.

Em 2010, vinte e seis anos depois da madrugada do vazamento, o tribunal de Bhopal condenou oito ex-dirigentes da filial indiana a dois anos cada um, por negligência. Nenhum executivo da matriz americana foi julgado.

A titularidade da empresa mudou no meio do caminho. A Dow Chemical comprou a Union Carbide Corporation em 2001 e sustenta desde então que o acordo de 1989 encerrou a responsabilidade do grupo, e que a limpeza do terreno é obrigação do governo de Madhya Pradesh, dono da área desde a devolução do arrendamento. O governo estadual responde que a contaminação do subsolo é anterior à transferência.

O efeito prático do impasse aparece na água. Laudos apresentados em ações judiciais indianas apontaram contaminação de poços do entorno por metais e solventes associados ao passivo da fábrica, e moradores de Jai Prakash Nagar seguiram recebendo água por caminhão-pipa e, mais tarde, por adutora construída para contornar os poços condenados.

 

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III  Depois da Foto

O pátio que ficou de pé

A estátua está a poucos metros do portão. Em 1985, a artista holandesa Ruth Waterman produziu uma escultura de pedra com uma mulher correndo, uma criança no colo e outra pela mão, instalada do lado de fora da fábrica por iniciativa de moradores e de grupos de apoio. Ela não tem placa do governo nem manutenção oficial, e funciona como o único marcador visível no lugar.

O atendimento também ficou por conta de iniciativa privada. A Sambhavna Trust Clinic, aberta em 1996 a cerca de 500 metros do terreno, atende gratuitamente moradores expostos e filhos de expostos, com financiamento vindo em boa parte do Bhopal Medical Appeal, a mesma organização que assina o crédito da fotografia de 1985 no Wikimedia Commons. O arquivo e o ambulatório saíram da mesma fonte de dinheiro.

Como conferir a fotografia por conta própria

1Procure no Wikimedia Commons pelo arquivo Union Carbide pesticide factory, Bhopal, India, 1985, e leia na própria página o crédito a Martin Stott pelo Bhopal Medical Appeal e a licença Creative Commons Attribution-ShareAlike antes de reutilizar a imagem.
2Abra em seguida o arquivo Bhopal Plant 7, fotografado por Julian Nyča em março de 2010, que mostra o tanque 610 deitado no terreno. A legenda da página nomeia o tanque, e é ela que liga a estrutura vazia ao mecanismo do vazamento.
3Desconfie de qualquer versão com fumaça sobre a cidade ou com pessoa no quadro apresentada como foto livre do caso. As imagens de dezembro de 1984 estão em arquivo de agência, e uma delas foi retirada de circulação por pedido do próprio autor.

O resíduo continua no terreno. A descrição do arquivo do Bhopal Medical Appeal fala em cerca de 350 toneladas de material tóxico guardadas acima do solo na fábrica desativada, além do que foi enterrado sem tratamento na área e nas antigas lagoas de evaporação solar. A chuva atravessa esse depósito todos os anos e desce para o aquífero que abastece a vizinhança.

O que não se sabe, e que nenhum laudo fechou até hoje, é o número de pessoas afetadas em segunda geração. Estudos do Indian Council of Medical Research acompanharam coortes de expostos por anos, mas a pesquisa de campo foi interrompida e retomada mais de uma vez, e não existe registro único que ligue o nascimento de cada criança com deficiência da região à exposição dos pais. A ausência desse registro é o que mantém a conta aberta.

Um prédio sem função virou prova material porque ninguém o derrubou. Terreno murado, tanque no mato e resíduo empilhado fazem o trabalho que a fotografia de uma vítima faria, com a diferença de que ninguém precisa pedir licença para mostrar.

O galpão de Jai Prakash Nagar continua de pé, murado, com a tubulação aérea cortando o céu exatamente como na fotografia creditada a Martin Stott, e o tanque 610 segue deitado no mato a poucos metros dele. A imagem que qualquer pessoa pode reproduzir do pior acidente industrial da história é a de um lugar onde não acontece mais nada.

“Quanto de um desastre precisa continuar de pé para que ele não vire apenas uma foto?”

 
 

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Em 2010, quantos ex-dirigentes da filial indiana da Union Carbide foram condenados, e a que pena cada um?

A5 dirigentes, 1 ano cada
B8 dirigentes, 2 anos cada
C3 dirigentes, 5 anos cada
D12 dirigentes, 6 meses cada

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