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ED 008

A Égua que Disparou as Próprias Câmeras

Em 19 de junho de 1878, na pista de Palo Alto, doze câmeras dispararam sozinhas quando a égua Sallie Gardner rompeu os fios do caminho

Sequência de quadros de um cavalo a galope na pista de Palo Alto em 1878, com um dos quadros mostrando os quatro cascos no ar.

The Horse in Motion, Eadweard Muybridge, 1878

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Durante quatro séculos o cavalo em disparada foi pintado sempre do mesmo jeito. As duas patas da frente esticadas para a frente, as duas de trás esticadas para trás, o corpo suspenso no ar como um arco tensionado.

A pose aparece em cena de caçada inglesa, em quadro de batalha napoleônica, em cartaz de corrida e em painel decorativo de salão. Virou gramática visual, repetida de mestre para aprendiz por gerações inteiras.

O desenho tinha um problema de origem. Nenhum pintor jamais tinha visto aquela cena. Um cavalo a galope fecha o ciclo completo de passada em menos de meio segundo, e a visão humana não separa os estágios de um movimento nessa velocidade.

A discussão era antiga e não tinha árbitro possível. Uma parte sustentava que o animal mantinha sempre pelo menos uma pata em contato com o chão. Outra jurava que existia um instante de voo, com os quatro cascos soltos ao mesmo tempo.

Sem prova material, o assunto se resolvia por autoridade. Valia a palavra do criador experiente, do veterinário respeitado ou do pintor famoso, e nenhum dos três tinha como demonstrar nada.

A resposta chegou em 1878, numa fileira de quadros pretos e brancos impressos lado a lado. O cavalo realmente sai do chão inteiro, mas não na pose que a pintura consagrou.

No instante de voo, as quatro patas ficam recolhidas embaixo da barriga e o corpo se fecha, compacto. A imagem que quatro séculos de arte tinham fixado era exatamente o oposto do que acontece.

Nenhum artista errou por preguiça ou por falta de talento. O erro morava num limite físico do olho, e consertar aquilo exigia uma máquina capaz de cortar o tempo em fatias de um milésimo de segundo.

A máquina que fez o corte não era uma câmera. Eram doze, enfileiradas ao longo de uma pista particular na Califórnia, e o dedo que apertou o botão não pertencia a nenhum fotógrafo.

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I  A Foto Histórica do Dia

Doze fios esticados na pista de Palo Alto

O lugar do teste não era estúdio nem pista pública. Era a fazenda de criação de um dos homens mais ricos da Califórnia, com pista própria, plantel próprio e orçamento aberto para um experimento que a ciência da época não sabia executar.

Palo Alto Stock Farm, Califórnia, 19 de junho de 1878, pista particular de Leland Stanford. Ao lado da reta, um galpão baixo de madeira abrigava doze câmeras alinhadas, todas apontadas para o mesmo trecho de areia.

Do outro lado da pista havia uma parede branca inclinada, riscada como papel milimetrado, com linhas verticais a cada 21 polegadas e horizontais a cada 4.

A grade não era enfeite. Ela funcionava como régua, para que cada quadro registrasse não só a pose do animal, mas o espaço percorrido entre um disparo e o seguinte.

O disparo era elétrico. Fios atravessavam a pista rente ao chão, ligados a um circuito com eletroímã, e cada fio respondia por uma câmera específica da fileira.

Quando o peito e as patas do cavalo rompiam um fio, o obturador correspondente caía, puxado por elástico de borracha. A sequência de fotos não dependia de reflexo humano em momento nenhum.

Ninguém olhava pelo visor e ninguém apertava botão. O intervalo entre uma imagem e outra era o tempo que o animal levava para vencer a distância entre dois fios esticados.

O obturador ficava aberto por cerca de um milésimo de segundo, número que a equipe divulgou na época. Era rápido o bastante para travar uma pata no ar e exigente o bastante para pedir sol de meio-dia.

A química cobrava o próprio preço. As chapas eram de colódio úmido, reveladas ainda molhadas num barracão escuro ao lado da pista, porque a emulsão perdia sensibilidade poucos minutos depois de pronta.

A corrida de 19 de junho

A protagonista era uma égua chamada Sallie Gardner, do plantel de Stanford, montada pelo jóquei G. Domm. Ela cruzou o trecho fotografado em ritmo de 1,40, o equivalente a uma milha em um minuto e quarenta segundos.

Nessa velocidade o corpo dela avançava mais de dez metros por segundo. Os doze fios foram rompidos em sequência, e o conjunto inteiro de exposições coube num intervalo menor que meio segundo.

Nenhum ser humano disparou aquelas fotos. Quem acionou os doze obturadores foi o próprio animal fotografado, e o intervalo entre os quadros foi medido pelas pernas dele.

O resultado saiu em tira, não em imagem única. Lado a lado, os quadros mostram a passada decomposta, do apoio na pata traseira até o momento em que o chão some embaixo do bicho.

Num deles os quatro cascos estão no ar ao mesmo tempo, recolhidos sob a barriga, exatamente como a pintura nunca desenhou. A dúvida de séculos passou a ter resposta em papel, com data, endereço e testemunhas.

O que veio depois não ficou restrito à criação de cavalos. A tira mexeu com a pintura, com a ciência do movimento e com a ideia de que uma câmera só sabia produzir imagem parada.

 
 

II  O Que Ela Mudou de Verdade

A pintura teve que refazer o galope

A foto não resolveu apenas uma dúvida sobre cavalos. Ela introduziu uma unidade nova de tempo. A partir de 1878 um movimento podia ser cortado, contado e remontado, e a imagem estática deixou de ser o único produto possível de uma câmera.

A primeira baixa foi a convenção do galope voador. Telas de corrida e de batalha com as quatro patas esticadas viraram documento de um erro que agora tinha prova impressa circulando.

Ernest Meissonier, o pintor francês mais bem pago do século dezenove em cena militar, recebeu as pranchas das mãos de Stanford em Paris, em 1881. Ele tinha construído a carreira inteira em cima de cavalo em movimento.

O encontro terminou com o pintor conferindo pose por pose o que tinha desenhado a vida toda. Edgar Degas fez o mesmo com as pranchas seguintes, e a anatomia dos cavalos dele mudou no meio da obra.

Do outro lado do Atlântico, Frederic Remington reviu a montaria dos cavalos do Oeste pelo mesmo motivo.

A pintura foi só o efeito visível. O efeito duradouro apareceu quando alguém percebeu que uma sequência de fotos, passada depressa diante do olho, devolve o movimento inteiro.

Da tira de papel para a tela

Em 19 de outubro de 1878 a capa da Scientific American trouxe dezoito gravuras feitas a partir das fotos da pista. O editor sugeriu ao leitor recortar as tiras, fechar em círculo e encaixar no zootrópio de casa.

O zootrópio já existia em sala de estar havia décadas, sempre com bonequinho desenhado à mão girando lá dentro. Foi a primeira vez que um público amplo viu um animal real se mover dentro do brinquedo.

A revista francesa La Nature publicou o material no fim daquele mesmo ano, e a repercussão chegou a Étienne-Jules Marey, fisiologista em Paris. Ele passou a construir os próprios aparelhos e chegou ao fuzil fotográfico em 1882, capaz de fazer doze exposições numa única placa giratória.

Em 1879 o autor das fotos montou um projetor para o material. O zoopraxiscópio girava um disco de vidro com as figuras pintadas a partir dos quadros e devolvia o galope à parede, diante de plateia sentada.

O aparelho rodou em conferências de 1880 a 1895, de Londres à Exposição Universal de Chicago. Cada sessão vendia ingresso para ver um cavalo que não estava ali.

Em fevereiro de 1888 ele levou o projetor ao laboratório de Thomas Edison, em West Orange, com uma proposta de casar imagem em movimento e som gravado. A conversa não virou sociedade, e o laboratório seguiu sozinho até o cinetoscópio.

Dez anos separam a égua na pista da primeira geração de aparelhos que projetavam movimento para plateia pagante. O que ninguém previu foi o destino do crédito daquelas doze fotos quando elas viraram livro.

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III  Depois da Foto

O livro de 1882 sem o nome do fotógrafo

O trabalho não parou em 1878. No ano seguinte a bateria subiu para vinte e quatro câmeras, e o repertório passou a incluir touro, cachorro e atleta correndo no mesmo trecho de pista.

Em 1881 saiu um álbum caro, de tiragem limitada, com as pranchas organizadas pelo próprio fotógrafo. Chamava-se The Attitudes of Animals in Motion e circulou entre assinantes, academias e algumas bibliotecas.

Em 1882 saiu o outro livro, o que alcançou o público grande. The Horse in Motion trazia o estudo completo da locomoção dos quadrúpedes e cerca de cem pranchas de silhuetas gravadas a partir das fotografias.

Na capa havia um autor, J. D. B. Stillman, médico e amigo pessoal de Stanford. Stanford bancou a edição e apareceu como originador da pesquisa.

O nome do fotógrafo não estava na página de rosto. Ele surgia no miolo, descrito como funcionário contratado, e num apêndice técnico montado a partir de um texto que ele mesmo tinha escrito.

O livro também não trazia as fotografias. As imagens que sustentavam a tese foram substituídas por silhuetas desenhadas, e o leitor comprava o traço de um gravador, não a chapa que registrou o animal.

A égua Sallie Gardner, de propriedade de Leland Stanford, correndo em ritmo de 1,40 na pista de Palo Alto, 19 de junho de 1878.

Eadweard Muybridge, legenda impressa no cartão The Horse in Motion, 1878

O prejuízo foi imediato. A Royal Society of Arts, em Londres, tinha se oferecido para financiar a continuação dos estudos de movimento animal e recuou assim que a disputa de autoria veio a público.

A resposta saiu no tribunal. O fotógrafo processou Stanford pedindo 50 mil dólares de indenização, a ação consumiu mais dinheiro do que ele tinha e acabou arquivada sem julgamento do mérito.

A carreira dele não terminou ali. Em 1883 a Universidade da Pensilvânia bancou um novo laboratório de movimento, e até 1886 o projeto produziu mais de cem mil imagens de bichos e de gente andando, subindo escada e carregando peso.

Em 1887 saiu Animal Locomotion, onze volumes com 781 pranchas e cerca de 20 mil fotografias. É o acervo que artista, médico e animador consultam até hoje.

Stanford seguiu o próprio caminho. Em 1885 ele fundou uma universidade em memória do filho, no mesmo terreno da fazenda, e hoje o campus ocupa a área onde os fios foram esticados.

O fotógrafo voltou para a Inglaterra e partiu em 1904, em Kingston upon Thames, a cidade onde tinha nascido setenta e quatro anos antes.

O cartão original da corrida está na Library of Congress, em domínio público, com o nome dele impresso na legenda desde 1878. O livro que levou a prova ao mundo foi o único lugar onde o crédito não coube.

"Quando uma máquina dispara sozinha, de quem é a foto que sai dela?"

 
 
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