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O lugar do teste não era estúdio nem pista pública. Era a fazenda de criação de um dos homens mais ricos da Califórnia, com pista própria, plantel próprio e orçamento aberto para um experimento que a ciência da época não sabia executar.
Palo Alto Stock Farm, Califórnia, 19 de junho de 1878, pista particular de Leland Stanford. Ao lado da reta, um galpão baixo de madeira abrigava doze câmeras alinhadas, todas apontadas para o mesmo trecho de areia.
Do outro lado da pista havia uma parede branca inclinada, riscada como papel milimetrado, com linhas verticais a cada 21 polegadas e horizontais a cada 4.
A grade não era enfeite. Ela funcionava como régua, para que cada quadro registrasse não só a pose do animal, mas o espaço percorrido entre um disparo e o seguinte.
O disparo era elétrico. Fios atravessavam a pista rente ao chão, ligados a um circuito com eletroímã, e cada fio respondia por uma câmera específica da fileira.
Quando o peito e as patas do cavalo rompiam um fio, o obturador correspondente caía, puxado por elástico de borracha. A sequência de fotos não dependia de reflexo humano em momento nenhum.
Ninguém olhava pelo visor e ninguém apertava botão. O intervalo entre uma imagem e outra era o tempo que o animal levava para vencer a distância entre dois fios esticados.
O obturador ficava aberto por cerca de um milésimo de segundo, número que a equipe divulgou na época. Era rápido o bastante para travar uma pata no ar e exigente o bastante para pedir sol de meio-dia.
A química cobrava o próprio preço. As chapas eram de colódio úmido, reveladas ainda molhadas num barracão escuro ao lado da pista, porque a emulsão perdia sensibilidade poucos minutos depois de pronta.
A corrida de 19 de junho
A protagonista era uma égua chamada Sallie Gardner, do plantel de Stanford, montada pelo jóquei G. Domm. Ela cruzou o trecho fotografado em ritmo de 1,40, o equivalente a uma milha em um minuto e quarenta segundos.
Nessa velocidade o corpo dela avançava mais de dez metros por segundo. Os doze fios foram rompidos em sequência, e o conjunto inteiro de exposições coube num intervalo menor que meio segundo.
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Nenhum ser humano disparou aquelas fotos. Quem acionou os doze obturadores foi o próprio animal fotografado, e o intervalo entre os quadros foi medido pelas pernas dele.
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O resultado saiu em tira, não em imagem única. Lado a lado, os quadros mostram a passada decomposta, do apoio na pata traseira até o momento em que o chão some embaixo do bicho.
Num deles os quatro cascos estão no ar ao mesmo tempo, recolhidos sob a barriga, exatamente como a pintura nunca desenhou. A dúvida de séculos passou a ter resposta em papel, com data, endereço e testemunhas.
O que veio depois não ficou restrito à criação de cavalos. A tira mexeu com a pintura, com a ciência do movimento e com a ideia de que uma câmera só sabia produzir imagem parada.
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