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A Descoberta que Tinha Endereço

Em 1911, Hiram Bingham subiu a Machu Picchu guiado por um agricultor e achou lavradores nos terraços; em 1913, a revista vendeu a descoberta

Vista geral de Machu Picchu em 1912, com terraços, praça e casas de pedra sem telhado e o pico Huayna Picchu ao fundo.

Machu Picchu limpa, Hiram Bingham, 1912

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A 2.430 metros de altitude, numa crista estreita entre dois picos dos Andes peruanos, a cerca de 450 metros acima do rio Urubamba, a cidade de pedra fica invisível para quem passa no fundo do vale. De baixo se vê só mata fechada e paredão; de cima se vê o rio dando uma volta quase completa em torno da montanha.

Em julho de 1911, a estrada de mulas que descia de Cusco rumo à floresta tinha acabado de ser aberta ao longo do Urubamba. Numa planície apertada chamada Mandor Pampa, o agricultor Melchor Arteaga arrendava terra e vendia pouso a quem passava. Ele conhecia as ruínas no alto do morro, como os vizinhos também conheciam.

Na noite de 23 de julho, chegou ao pouso um professor de história da América Latina da Universidade Yale, de 35 anos, à frente de uma expedição que procurava Vilcabamba, o último refúgio dos incas contra os espanhóis. Arteaga contou que havia ruínas boas na montanha que chamava de Machu Picchu (montanha velha, em quíchua, a língua dos incas).

Na manhã seguinte chovia, e os outros membros da expedição preferiram ficar no acampamento. O professor pagou a Arteaga uma moeda de prata, e os dois subiram com um sargento da guarda peruana de sobrenome Carrasco. Cruzaram o rio numa ponte de troncos amarrados com cipó e, em alguns trechos, escalaram a encosta de quatro.

No alto não havia o silêncio de ruína abandonada. Havia duas famílias de lavradores, a de Toribio Richarte e a de Anacleto Álvarez, que plantavam milho, batata e cana nos terraços incas e bebiam a água de um canal de pedra com cinco séculos. Ofereceram aos visitantes batata cozida e uma cabaça de água fresca.

Um menino das famílias foi encarregado de mostrar o caminho entre as paredes cobertas de mato. Menos de dois anos depois, a revista que bancou a volta do professor contaria a subida sem os lavradores no enredo, e a foto que ela escolheu para vender a história guarda a prova de como a narrativa foi montada.

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I  A Foto Histórica do Dia

I, O morro depois do facão

Hiram Bingham III, historiador nascido em Honolulu em 1875, filho e neto de missionários protestantes, é o autor da imagem. Ele voltou a Machu Picchu em 1912 com a segunda expedição, financiada pela Universidade Yale e pela National Geographic Society, e dessa vez com uma missão só: limpar a montanha para fotografar a cidade inteira.

Em 1911, a paisagem era outra. A foto feita naquele 24 de julho pelo engenheiro da expedição, H. L. Tucker, mostra paredes afogadas em árvores e trepadeiras, com os terraços quase apagados pelo verde. Não havia enquadramento possível que revelasse o traçado urbano.

Em 1912, turmas de trabalhadores peruanos contratados pela expedição passaram semanas cortando o mato a facão e queimando o que cortavam. O resultado é o que a chapa registra: uma cidade raspada até a pedra, sem telhado, sem gente e sem roça.

O que o enquadramento mostra

A câmera está no alto do setor sul, olhando para o norte. No primeiro plano descem os terraços agrícolas em degraus; no meio fica a praça principal, gramada, cercada por casas de granito sem cobertura; no fundo sobe Huayna Picchu (montanha jovem, em quíchua), o pico em forma de dente que virou a assinatura do lugar.

Os telhados originais eram de palha trançada sobre vigas de madeira, e apodreceram séculos antes da foto. Sem eles, as casas aparecem como caixas abertas, com as empenas triangulares apontando para o céu vazio. O efeito é de cidade morta, congelada no instante do abandono.

A cidade sem os moradores

O que a imagem deixa de fora pesa tanto quanto o que ela mostra. As cabanas das famílias Richarte e Álvarez, as plantações de milho e os animais não entram no quadro. Os lavradores que serviram batata aos visitantes em 1911 ficaram fora do ângulo escolhido.

A limpeza de 1912 deu à foto uma cidade legível e tirou dela as pessoas que viviam ali.

Bingham sabia o que fazia com a câmera. Ele fotografou sistematicamente, numerou as chapas e anotou legendas, e usou esse acervo depois em artigos, palestras e livros. A vista geral de 1912 foi pensada como a imagem de capa da expedição.

A escolha do ponto alto também tem motivo técnico. Só dali cabem no mesmo quadro os três andares da cidade: a roça em degraus, o bairro de pedra e o pico que a protege. Visto de baixo, o conjunto some atrás dos próprios muros.

 
 

II  O Que Ela Mudou de Verdade

II, Abril de 1913, a palavra descoberta

A National Geographic Magazine dedicou praticamente toda a edição de abril de 1913 à reportagem de Bingham, com o título In the Wonderland of Peru (Na terra das maravilhas do Peru). A vista geral de Machu Picchu abria em página dupla, e o texto apresentava a cidade como achado da expedição americana.

Os moradores entram no texto como detalhe de cenário, e Arteaga, como guia pago. Quem já tinha subido antes aparece pouco ou nada. O leitor de Nova York, Londres ou Boston fechava a revista com a ideia de uma cidade intocada, vista pela primeira vez por olhos de fora.

O nome a carvão na parede

Os papéis do próprio Bingham desmontam essa versão. No Templo das Três Janelas, ele encontrou escrito a carvão o nome de Agustín Lizárraga, arrendatário de terras da região, com a data de 1902. No caderno de campo daquele julho, anotou a frase sem rodeio:

Agustín Lizárraga é o descobridor de Machu Picchu e mora na ponte de San Miguel, logo antes de passar.

Hiram Bingham III, caderno de campo, 1911

Lizárraga se afogou no Urubamba em fevereiro de 1912, antes da segunda expedição. A anotação não chegou à revista. A inscrição dele na parede também desapareceu com o tempo, e hoje a assinatura sobrevive em fotografias, algumas delas guardadas no Wikimedia Commons.

O que a revista fixou

A reportagem transformou uma ruína conhecida dos camponeses do vale em símbolo mundial. O ângulo de 1912, com Huayna Picchu ao fundo, virou o enquadramento padrão das fotos de turistas nas décadas seguintes, repetido quase ao centímetro no mesmo mirante.

Também fixou o apelido de cidade perdida. Em 1948, Bingham publicou o livro Lost City of the Incas (A cidade perdida dos incas), que reforçou a expressão, embora ele mesmo tenha anotado que a cidade tinha visitantes, arrendatários e donos de terra antes dele.

A palavra descoberta, em 1913, apagou o agricultor que guiou a subida, as famílias que plantavam os terraços e o nome escrito a carvão em 1902.

O que a expedição fez de novo foi outra tarefa: medir, mapear, escavar e fotografar a cidade inteira pela primeira vez, e levar a imagem dela a leitores do mundo todo. Esse mérito é real e tem registro. A descoberta, não.

A própria foto de 1912 conta as duas histórias para quem olha com calma: a precisão do levantamento está na cidade limpa e bem enquadrada; o apagamento está no que o facão e o ângulo tiraram de cena.

 

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III  Depois da Foto

III, As caixas de New Haven

As escavações de 1912 abriram túmulos nas encostas e recolheram ossadas, cerâmica, metal e ferramentas. Um decreto do governo peruano autorizou a saída do material para estudo, e as caixas seguiram de navio até o Museu Peabody de História Natural, da Universidade Yale, em New Haven.

O Peru passou a pedir a devolução ainda nas décadas seguintes, sem sucesso. A disputa só se resolveu em 2010, num acordo entre Yale e o governo peruano. Entre 2011 e 2012 o acervo voltou a Cusco e foi para a Casa Concha, museu mantido com a Universidad Nacional de San Antonio Abad, a universidade pública da cidade.

Os caminhos de quem estava na foto e fora dela

Bingham deixou a arqueologia pela política. Foi eleito governador de Connecticut em 1924, ficou poucas semanas no cargo e passou ao Senado dos Estados Unidos, onde cumpriu mandato até 1933. Morreu em Washington em 1956. A estrada em zigue-zague que sobe do rio até as ruínas, aberta em 1948, leva o nome dele.

Machu Picchu entrou na lista do Patrimônio Mundial da Unesco em 1983. As pesquisas posteriores ligaram a cidade ao imperador inca Pachacútec, que a mandou construir no século XV como propriedade real, e ela foi abandonada na época da conquista espanhola.

A chapa da vista geral seguiu com o arquivo de Bingham para Yale e hoje circula em domínio público no Wikimedia Commons, catalogada como trabalho da expedição de 1912.

As caixas voltaram a Cusco quase um século depois; os nomes de Arteaga, Richarte, Álvarez e Lizárraga voltaram antes, pelos cadernos do próprio Bingham.

O que a foto não responde

1O destino de Melchor Arteaga. Nenhum registro publicado acompanha a vida do agricultor depois de 1911, e a pesquisa sobre ele parou nos relatos da própria expedição.
2Quando as famílias Richarte e Álvarez deixaram os terraços. As fontes conhecidas não fixam o ano em que a última roça foi abandonada.
3O nome completo do menino guia. Relatos posteriores o chamam de Pablito Álvarez, mas nenhum documento de 1911 confirma o nome.

Em Mandor Pampa, o rio Urubamba continua dando a volta quase completa em torno da montanha. A 2.430 metros de altitude, a praça que Bingham fotografou raspada até a pedra recebe hoje fila de turistas no mesmo mirante de 1912, e a estrada que leva até ela tem o nome do professor que pagou uma moeda de prata para subir, e nenhuma curva com o nome de Arteaga.

“Se Lizárraga tivesse vivido até abril de 1913, a revista teria contado a subida com o nome dele?”

 
 
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No Templo das Três Janelas, Bingham encontrou escrito a carvão o nome de quem, com a data de 1902?

AMelchor Arteaga
BAgustín Lizárraga
CToribio Richarte
DH. L. Tucker

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