|
|
A Chapa que Passou Meio Século num Baú
Em 1826, numa janela de Saint-Loup-de-Varennes, uma placa de estanho coberta de betume gravou um pátio depois de horas paradas ao sol
|
View from the Window at Le Gras, Niépce, 1826
|
| ▼ |
| |
|
Quem vê a primeira fotografia do mundo pela primeira vez costuma achar que está vendo o verso da peça. A superfície é metálica, devolve o rosto de quem olha e, dependendo do ângulo, não mostra imagem nenhuma.
É uma placa de estanho do tamanho de uma folha pequena, com manchas claras e escuras espalhadas por ela. Só com a luz batendo de lado, quase raspando, o desenho aparece: telhados, uma parede, uma árvore, um pedaço de céu leitoso.
A dificuldade não é defeito de conservação. Ela nasceu assim. O que segura a imagem na placa não é prata nem tinta, e sim uma resina que endurece onde recebe luz e continua mole onde a sombra protegeu.
A cena registrada é de uma banalidade absoluta: o que se via da janela de um quarto de trabalho no primeiro andar de uma casa de campo francesa, com o pátio embaixo e os anexos do outro lado.
Nenhum modelo posou, nenhum acontecimento aconteceu, ninguém foi convocado. O assunto foi escolhido pelo único critério que importava naquele momento: era a coisa mais parada que existia ao alcance da janela.
Parada importava porque a exposição durava horas. Qualquer pessoa, cavalo ou carroça que passasse pelo pátio simplesmente não entrava na conta, e por isso a primeira fotografia do mundo é uma paisagem sem gente.
Repare nas sombras da placa e você encontra o detalhe que denuncia o tempo. A parede da esquerda tem sol e a da direita também, coisa que o Sol não faz num mesmo instante, porque ele levou o dia inteiro atravessando o campo enquanto a resina endurecia devagar.
Essa peça tinha tudo para não chegar até aqui. Ela não foi comprada por museu nenhum na época, não entrou em acervo, não virou relíquia nacional e passou décadas guardada como lembrança de família num país que não era o do inventor.
Continue lendo ↓
|
|
|
|
I A Foto Histórica do Dia
A resina que endurecia na janela do sótão
|
|
Joseph Nicéphore Niépce tinha por volta de 60 anos e já vinha trabalhando havia mais de uma década no mesmo problema, na propriedade da família em Saint-Loup-de-Varennes, um vilarejo perto de Chalon-sur-Saône, na Borgonha.
A casa se chamava Le Gras. O quarto de trabalho ficava no andar de cima, com uma janela virada para o pátio interno, e era ali que ele montava as câmeras de madeira compradas de um fabricante de instrumentos de Paris.
O problema que ele perseguia tinha duas metades. A primeira, a imagem projetada dentro de uma caixa escura, estava resolvida havia séculos por qualquer câmara obscura. A segunda, fazer a imagem ficar, não tinha solução conhecida por ninguém.
|
Uma placa de estanho de cerca de 20 por 16 centímetros, betume da Judeia dissolvido em óleo de lavanda e uma exposição que atravessou o dia inteiro na janela de Le Gras.
|
Como funcionava a heliografia
O material escolhido não veio da química de laboratório, veio da gravura. Betume da Judeia é um asfalto natural que gravadores usavam como verniz protetor, e que tem uma propriedade curiosa: endurece e perde a solubilidade quando exposto à luz.
Niépce dissolvia o betume em óleo de lavanda, espalhava a solução fina sobre a placa de estanho polido e deixava secar. A placa entrava na câmera e ficava lá, apontada para o pátio, durante horas.
Onde a luz batia forte, o betume cozinhava e ficava duro. Onde a cena era escura, ele continuava solúvel. Terminada a exposição, um banho de óleo de lavanda com essência de petróleo lavava a parte mole e deixava a dura no lugar.
O que sobrava era um relevo mínimo de resina clara sobre metal escuro, e é essa diferença entre o brilho da resina e o brilho do estanho que forma a imagem. Ele batizou o processo de heliografia, escrita pelo Sol.
A duração exata da exposição continua em discussão. A conta tradicional fala em oito horas. Pesquisadores que refizeram o processo com os mesmos materiais chegaram a estimativas bem maiores, de vários dias seguidos de janela aberta.
Não existe caderno com hora de início e hora de fim, e o próprio inventor descrevia o método em cartas por assunto, não por protocolo. O que ficou registrado foi o resultado, não o cronômetro.
O detalhe que interessa é outro. A imagem que sobrou não é um instante, é um acúmulo. Ela não congela um momento do pátio, ela soma todos os momentos daquele dia num único borrão de luz assentada.
|
|
|
|
|
II O Que Ela Mudou de Verdade
O escritório que recusou o segredo
|
|
Em 1827 a placa atravessou o Canal da Mancha dentro da bagagem do inventor, foi apresentada ao maior clube científico do mundo e voltou para a gaveta sem uma linha publicada.
|
Niépce viajou à Inglaterra naquele ano para visitar um irmão doente que morava perto de Kew, nos arredores de Londres. Levou consigo as placas e uma memória escrita sobre o processo.
Ali ele conheceu Francis Bauer, ilustrador botânico dos Jardins de Kew e membro da Royal Society, que entendeu na hora o tamanho do que estava vendo e ofereceu abrir as portas da instituição.
A Royal Society tinha uma regra dura para apresentação de descoberta: o autor precisava revelar o método. Niépce se recusou a descrever a química, porque pretendia explorar a invenção comercialmente antes de entregá-la ao mundo.
Sem método, sem apresentação. A memória não foi lida em sessão, a placa não virou comunicação oficial e a primeira fotografia do mundo saiu de Londres sem uma linha de registro no arquivo da maior sociedade científica da época.
O que veio depois da recusa
Ao voltar para a França, ele deixou a placa e os papéis com Bauer, como lembrança da hospitalidade. Foi a decisão mais consequente da viagem, e não teve nada de estratégico: era um presente.
Em 1829, já sem dinheiro para seguir sozinho, Niépce assinou sociedade com Louis Daguerre, cenógrafo parisiense que trabalhava no mesmo problema por outro caminho. Ele morreu em 1833, e o sócio ficou com os cadernos.
Seis anos depois, em 1839, a França anunciou ao mundo o daguerreótipo, comprou o processo em troca de pensões vitalícias e o entregou de graça à humanidade. O nome que atravessou o século foi o de Daguerre.
O contrato de 1829 previa que a invenção original entrava na sociedade. O anúncio de 1839 mencionava o antecessor de passagem, e o público entendeu o recado que estava na manchete, não o que estava na nota de rodapé.
|
Pretendo copiar a natureza com a maior fidelidade possível.
Joseph Nicéphore Niépce, carta ao irmão Claude, 1816
|
A placa de Le Gras, enquanto essa disputa toda acontecia, continuava em Londres na casa de um ilustrador botânico. Bauer escreveu no verso da moldura o que aquilo era e quem tinha feito, e essa etiqueta salvou a peça duas gerações depois.
Ela apareceu em público uma única vez no século 19, numa exposição sobre a história da fotografia realizada em 1898 no Crystal Palace, emprestada por um colecionador que a tinha comprado num leilão de espólio.
Depois disso, sumiu. Passou por herança dentro de uma família inglesa, foi para o fundo de uma caixa de mudança e desapareceu completamente do mundo dos museus, dos leilões e dos historiadores por mais de meio século.
|
|
|