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ED 089
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A Câmera do Tesoureiro em Meca

Em 1880, um engenheiro do exército egípcio levou a câmera na caravana da peregrinação e fez as primeiras fotos conhecidas da Caaba

A Caaba coberta pela kiswa, com peregrinos em volta, fotografada por Muhammad Sadiq Bey em Meca em 1880

A Caaba, Muhammad Sadiq Bey, 1880

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A 277 metros acima do nível do mar e a cerca de 70 quilômetros do porto de Jidá, Meca ocupa o fundo de um vale seco, apertado entre morros de pedra escura. Do alto do Abu Qubais, o morro a leste, via-se o pátio da Grande Mesquita e, no meio dele, um cubo de pedra de uns 13 metros de altura, vestido de pano preto.

O pano preto vinha de longe. Todo ano, uma caravana oficial saía do Cairo rumo ao Hejaz, a faixa do oeste da Arábia onde ficam Meca e Medina, com peregrinos egípcios, soldados, dinheiro do governo e a kiswa, o tecido bordado que cobre a Caaba, costurado em oficinas da capital egípcia.

À frente da caravana ia o mahmal, uma liteira cerimonial sem passageiro, montada sobre um camelo enfeitado. A liteira levava o nome de quem mandava a caravana, e a chegada dela a Meca era um dos momentos mais assistidos da peregrinação.

Em 1880, a caravana cortou o Sinai por terra e desceu a costa do mar Vermelho. O cargo de tesoureiro, responsável pelo dinheiro da viagem e pela passagem segura do mahmal até Meca, coube a um oficial engenheiro do exército egípcio, formado em Paris e acostumado a medir terreno.

Na bagagem dele, além dos cofres e dos livros de contas, iam uma câmera grande e caixas de chapas de vidro. Nenhum regulamento da caravana pedia fotografia, e nenhuma foto conhecida mostrava, até ali, o pátio da Grande Mesquita.

O oficial já tinha levado a mesma câmera ao Hejaz dezenove anos antes, para outra cidade, e tinha voltado ao Cairo com chapas que ninguém mais possuía. Desta vez, o alvo era o cubo coberto pelo pano que a própria caravana trazia.

A chapa que ele fez desse cubo, com os peregrinos girando em volta, é a foto do dia, e cada detalhe dela começa logo abaixo.

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I  A Foto Histórica do Dia

A Caaba sob o pano do Cairo

A foto do dia é a Caaba fotografada por Muhammad Sadiq Bey em Meca, em 1880. O cubo ocupa o centro do quadro, coberto pela kiswa escura, com uma faixa de inscrições bordadas cortando o pano no terço de cima.

Em volta da base, os peregrinos fazem o tawaf, as sete voltas rituais em torno da Caaba. Como andavam enquanto a chapa recebia luz, muitos saem como borrões, e só quem parou aparece com contorno nítido.

No alto da parede, a calha que escoa a água do telhado, chamada mizab, aparece com clareza. Atrás do cubo correm as arcadas da mesquita, sobe um minarete e se amontoam casas de vários andares, morro acima, até a pequena mesquita de Bilal, no topo.

A cópia é uma impressão em albumina colada em cartão, com 16,5 por 21,5 centímetros de imagem, segundo o catálogo da Coleção Khalili. No canto de baixo, à direita, aparecem a assinatura em árabe e o ano 1297 do calendário islâmico, o mesmo 1880 do calendário cristão.

Embaixo da imagem, alguém anotou à mão, em árabe e em francês, o nome de cada canto do cubo e uma legenda curta: “La Kaaba couverte du tapis égyptien”, a Caaba coberta pelo tapete egípcio.

O tesoureiro com câmera

Nascido no Cairo, o fotógrafo estudou na escola militar da cidade e na École Polytechnique, em Paris, e entrou no exército egípcio como engenheiro. As fontes divergem sobre o ano em que ele nasceu, 1822 ou 1832.

Chegou a coronel e voltou à escola militar para ensinar desenho cartográfico, a técnica de passar o terreno medido para o papel. O título de bey, honraria concedida pelo governo, veio nos anos 1870.

Em 1880, foi nomeado tesoureiro da caravana oficial da peregrinação. Respondia pelo dinheiro e pela chegada do mahmal a Meca, e levou a câmera por conta própria, como já tinha feito antes.

Do alto dos muros

Para as vistas largas, Sadiq Bey subia nos muros e nos telhados em volta da mesquita. De lá montou panoramas, emendando chapas vizinhas para mostrar num quadro só o pátio, a Caaba e a cidade em volta.

Fotografou também a porta de Safa e os acampamentos de peregrinos em Mina e na planície de Arafat, a cerca de 20 quilômetros do centro. Fez ainda retratos dos homens que guardavam os santuários, como o xeique Umar al-Shaibi, guardião da chave da Caaba.

Ao xeique, mandou as cópias acompanhadas de um poema. Num dos versos, perguntava se os fotógrafos estavam destinados a queimar no fogo, uma dúvida comum entre religiosos da época sobre fazer imagens.

O pano do cubo vinha do Cairo, pela mesma rota da caravana do fotógrafo.

 
 

II  O Que Ela Mudou de Verdade

Doze vistas a caminho de Veneza

Antes de 1880, quem não podia ir a Meca conhecia a cidade por texto e por gravura. Os relatos mais lidos na Europa eram de viajantes que entraram disfarçados de peregrinos muçulmanos.

O suíço Johann Ludwig Burckhardt esteve na cidade em 1814. O inglês Richard Burton chegou em 1853 e publicou o relato em três volumes, entre 1855 e 1856, com desenhos feitos de memória e de anotações escondidas.

Nenhum dos dois levou câmera. Para quem entrava disfarçado, um aparelho de fotografar seria difícil de explicar na primeira revista.

Sadiq Bey entrava com outra credencial. Era árabe, muçulmano e oficial da caravana do governo, e nada indica que alguém tenha se oposto à câmera dele, segundo a reconstituição publicada pela revista Saudi Aramco World em 1999.

A primeira chapa, em Medina

A câmera já tinha feito parte do caminho. No fim de janeiro de 1861, o oficial pegou o trem do Cairo para Suez com instrumentos de agrimensura, entre eles um hectômetro para medir distâncias, e uma câmera grande de chapa úmida.

A missão era levantar o relevo, o clima e as rotas entre o porto de Wajh, no mar Vermelho, e Medina. Foram 418 quilômetros em doze dias, com mais de 38 graus à tarde e noites perto de zero.

Ele só tirou a câmera da caixa quando Medina apareceu no horizonte. Em fevereiro de 1861, fotografou a Mesquita do Profeta e a cúpula verde, nas primeiras fotos conhecidas da cidade, e anotou no diário de viagem, citado pela Saudi Aramco World em 1999:

“Ninguém antes de mim tirou fotografias assim.”

O relato saiu só em 1877, na Gazeta Militar Egípcia, e depois em livro com quatro fotos, o mapa da rota e a planta da mesquita. Em 1876, as fotos de Medina já tinham aparecido no pavilhão do Egito na exposição do centenário americano, em Filadélfia.

O álbum de Veneza

Em setembro de 1881, Veneza recebeu o Terceiro Congresso Internacional de Geografia, com uma exposição de mapas, instrumentos e fotos de expedições. Sadiq Bey levou um álbum de 12 fotografias de Meca e Medina, quatro delas panorâmicas, com texto de comentário escrito por ele.

O álbum ganhou medalha de ouro e saiu depois com o título francês Collection de Vues Photographiques de La Mecque et de Médine (Coleção de vistas fotográficas de Meca e Medina).

Em Veneza, geógrafos europeus viram o pátio de Meca numa chapa feita por um peregrino.

Os panoramas de Mina e de Arafat mostravam o tamanho dos acampamentos, as fileiras de tendas e a planície cheia de gente, um dado que nenhum relato escrito entregava com a mesma precisão.

Em 1885, o orientalista holandês Christiaan Snouck Hurgronje passou meses em Meca e reuniu fotos da cidade no álbum Bilder aus Mekka (Imagens de Meca), publicado em 1889.

 

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III  Depois da Foto

Da caravana ao Guia do Hajj

Cada viagem virou livro. Mash'al al-Mahmal (A tocha do mahmal), de 1881, reuniu as fotos e as impressões das cidades santas na viagem de 1880, com as medidas e os nomes que o engenheiro anotava pelo caminho.

Em 1883, Sadiq Bey voltou ao Hejaz pela terceira vez, de novo como tesoureiro da caravana. A mulher dele, com quem estava casado havia 34 anos, viajou do Cairo para encontrá-lo e morreu em Meca, no lado das mulheres da Grande Mesquita.

Ele mandou fazer um caixão e a enterrou em Medina. No livro dessa viagem, Kawkab al-Hajj (A estrela do hajj), de 1886, a passagem sobre a morte dela saiu cercada por uma moldura grossa de tinta preta.

Em 1896 veio o quarto livro, Dalil al-Hajj (Guia do hajj), um manual prático para quem chegava a Meca e Medina vindo de qualquer direção, com o resumo das três viagens e conselhos de rota.

Do título de paxá ao sol de Arish

A carreira militar terminou no posto de liwa, equivalente a general. Ele recebeu o título de paxá e presidiu a Sociedade Geográfica Quedival, no Cairo, que já o tinha aceitado como membro.

Em 1902, foi nomeado governador de El Arish, no norte do Sinai. Ficou cerca de dois meses no posto, sofreu uma insolação e voltou ao Cairo, onde morreu no mesmo ano.

Nas cópias, ele assinava em árabe e em francês, como Sadic Bey. Também mandou fazer um carimbo redondo com a inscrição “Photographe Diplômé à l'Exp. de Philie 1876”, fotógrafo diplomado na exposição de Filadélfia.

Os quatro livros de Sadiq Bey cobrem 35 anos, da primeira chapa de Medina ao guia de 1896.

Onde estão as chapas

As cópias em albumina se espalharam por coleções de três países. Há séries na Coleção Khalili e no Victoria and Albert Museum, em Londres, no Museu Reiss-Engelhorn, em Mannheim, na Alemanha, e na biblioteca de belas-artes da Universidade Harvard, nos Estados Unidos.

A Coleção Khalili guarda uma série dos panoramas de 1880 e 1881, com as vistas da Caaba, de Mina, de Arafat e de Medina, além dos retratos dos guardiões dos santuários.

Na cópia da Coleção Khalili, o Abu Qubais ocupa o fundo da chapa, com a mesquita de Bilal no topo e o cubo de 13 metros vestido com o pano do Cairo embaixo. A imagem mede 16,5 por 21,5 centímetros, e no canto de baixo, à direita, a tinta ainda mostra o nome de Sadiq Bey e o ano 1297.

 
 
 

Quiz da edição

Quantos anos antes de fotografar a Caaba em Meca, em 1880, o oficial egípcio já tinha levado a mesma câmera ao Hejaz, para fotografar Medina?

ANove anos antes
BVinte e cinco anos antes
CDezenove anos antes
DQuinze anos antes

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