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A Câmera de Madeira de Toyo Miyatake em Manzanar

Preso com a família em 1942, o fotógrafo de Los Angeles montou uma câmera clandestina e registrou o campo até 1945

Retrato de Toyo Miyatake, de terno e gravata, feito por Ansel Adams em Manzanar em 1943

Toyo Miyatake, Ansel Adams, 1943

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A 1.200 metros de altitude, no vale do Owens, cerca de 360 quilômetros ao norte de Los Angeles, o campo de Manzanar ocupava uma faixa plana de areia e artemísia. Dali se via a parede da Sierra Nevada e o monte Williamson, com 4.383 metros, coberto de neve boa parte do ano.

O vento descia da serra à tarde e levantava poeira fina. A poeira entrava pelas frestas das tábuas dos barracões, cobria as camas de campanha e assentava na comida servida nos refeitórios coletivos.

Em março de 1942, os primeiros ônibus chegaram com famílias de origem japonesa tiradas da costa oeste americana. A ordem vinha da Ordem Executiva 9066, assinada pelo presidente Franklin D. Roosevelt em 19 de fevereiro, três meses depois do ataque japonês a Pearl Harbor.

Cada família podia levar só a bagagem que conseguisse carregar. Casas, lojas, barcos de pesca e lavouras ficaram para trás, muitas vendidas às pressas por uma fração do valor.

O campo cresceu em 36 blocos de barracões, cercados por arame farpado e por oito torres de vigia com soldados armados. Segundo o National Park Service, o serviço de parques nacionais americano, Manzanar chegou a abrigar mais de 10 mil presos ao mesmo tempo, dois terços deles cidadãos americanos nascidos no país.

Câmeras eram proibidas aos presos. O governo tratava qualquer aparelho de fotografar nas mãos de um japonês-americano como risco de espionagem, e os rolos de filme entravam na lista de contrabando.

Um dos homens que desceram do ônibus era fotógrafo profissional. Na mala, entre roupas e panelas, ele levava uma lente embrulhada e um suporte de chapas de filme, peças pequenas o bastante para passar pela revista.

O que ele fez com essas peças nos três anos seguintes, e quem foi obrigado a apertar o botão por ele, começa na foto que outro fotógrafo fez dele em 1943, contada logo abaixo.

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I  A Foto Histórica do Dia

O retrato feito pelo convidado

A foto do dia é um retrato de Toyo Miyatake feito por Ansel Adams em Manzanar, em 1943. Miyatake aparece de frente, em plano de busto, de terno e gravata, com o olhar firme na direção da lente do colega.

O fundo é claro e liso, sem barracão, sem torre e sem arame. Nada no quadro diz onde a foto foi feita, e só a legenda da Biblioteca do Congresso americano identifica o retratado como fotógrafo preso em Manzanar.

Adams chegou ao campo a convite do diretor Ralph Merritt, amigo dele dos tempos de montanhismo na Sierra Nevada. Fotografou presos no trabalho, na escola e em casa, e o retrato de Miyatake entrou na série que virou o livro Born Free and Equal (Nascidos livres e iguais), de 1944.

O fotógrafo de Little Tokyo

Toyo Miyatake nasceu em 1895 na província de Kagawa, no Japão, e emigrou para Los Angeles em 1909, para viver com o pai. Estudou fotografia com Harry K. Shigeta e abriu estúdio próprio em 1923, em Little Tokyo, o bairro japonês da cidade.

Era Issei, palavra japonesa para o imigrante de primeira geração, a quem a lei americana da época negava a cidadania. Fazia retratos de casamento, fotos de dança e trabalhos artísticos, e convivia com o fotógrafo Edward Weston.

A câmera montada no barracão

Em Manzanar, Miyatake guardou a lente e o suporte de chapas escondidos. Um amigo carpinteiro, também preso, construiu para ele uma caixa de madeira com sobras de obra, no tamanho exato para encaixar as duas peças.

O filme chegava aos poucos, trazido por conhecidos de fora, segundo o relato que a família repete até hoje. Miyatake fotografava cedo, antes da movimentação dos guardas, e revelava os negativos à noite.

A caixa não tinha visor de vidro nem obturador moderno. Para enquadrar, ele mirava pela lateral e calculava a distância de cabeça, um hábito de quem já tinha passado vinte anos atrás de câmeras de estúdio.

O primeiro acordo com a direção

Merritt descobriu a câmera. Ele não a confiscou. Deixou Miyatake fotografar o campo, com uma condição imposta pelas normas da época: um funcionário branco tinha de apertar o botão.

Miyatake escolhia o ângulo, ajustava o foco e a exposição, e esperava. O assistente só disparava o obturador, o mecanismo que abre a lente por uma fração de segundo.

A regra durou meses. Em vários negativos desse período, a composição é de Miyatake e o clique é de um funcionário da administração, e o arquivo da família credita todas as fotos a Toyo, porque a escolha de cada quadro era dele.

A autoria era de Miyatake, mas o dedo no obturador pertencia a outro homem.

A família guarda uma frase dele sobre o motivo de insistir, repetida no documentário Toyo's Camera (A câmera de Toyo), de Junichi Suzuki, lançado em 2008:

“Tenho a responsabilidade, como fotógrafo, de registrar a vida no campo para que isto nunca mais aconteça.”

 
 

II  O Que Ela Mudou de Verdade

Quando o preso virou fotógrafo oficial

Com o tempo, Merritt afrouxou a regra. Os guardas se acostumaram com Miyatake andando entre os blocos com a caixa de madeira, e o assistente deixou de ser exigido em cada disparo.

Miyatake assumiu o posto de fotógrafo do próprio campo. Montou um estúdio num barracão, com equipamento comprado de fornecedores em Los Angeles, e recebia a comunidade com hora marcada.

A mulher dele, Hiro, e os quatro filhos viviam no mesmo bloco. Os meninos carregavam o tripé e as chapas, e Archie, o mais velho, aprendeu ali a revelar e a ampliar cópias.

O que entrou no arquivo

A câmera dele registrou a vida que os presos montaram dentro da cerca. Entre os temas que sobreviveram no acervo da família estão:

1. Casamentos e formaturas da escola secundária de Manzanar.

2. Jogos de beisebol na poeira, com a serra no fundo.

3. Retratos de família para mandar aos filhos alistados no Exército.

4. As torres de vigia e o arame, vistos de dentro.

O último tema era o mais arriscado. As fotos oficiais do governo evitavam mostrar as torres armadas, e as de Miyatake as deixavam no quadro.

Três olhares sobre o mesmo campo

Manzanar foi fotografado por três nomes importantes. Dorothea Lange esteve lá em 1942, contratada pela War Relocation Authority (Autoridade de Realocação de Guerra), e boa parte das fotos dela ficou retida pelo governo durante a guerra.

Ansel Adams chegou em 1943 com a câmera de grande formato e o céu limpo da serra. O livro dele foi criticado na época por mostrar presos sorridentes e por esconder o arame.

Miyatake tinha o acesso que nenhum dos dois teve. Ele morava no campo, conhecia as famílias pelo sobrenome e podia fotografar uma cena num dia comum, sem a visita anunciada de um convidado.

As fotos dele mostram rotina: fila do refeitório, roupa no varal, crianças na escola de tábuas. Não há pose para a imprensa, porque nenhuma era feita para a imprensa.

Só o fotógrafo preso viu Manzanar todos os dias, de 1942 a 1945.

Em 1965, Adams doou à Biblioteca do Congresso americano as fotos de Manzanar, entre elas o retrato de Miyatake. O conjunto entrou em domínio público e é a cópia que o Wikimedia Commons hospeda hoje.

 

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III  Depois da Foto

O estúdio reaberto em Little Tokyo

Manzanar fechou em novembro de 1945. Os últimos presos receberam passagem de ônibus e 25 dólares para recomeçar, e muitos encontraram casas e lojas ocupadas por outros donos.

Miyatake voltou a Los Angeles e reabriu o estúdio em Little Tokyo em 1946. Fotografou a comunidade japonesa da cidade por mais três décadas e viveu até 1979.

No pós-guerra, ele levou o mesmo cuidado dos retratos de Manzanar para os casamentos e aniversários de Little Tokyo. Muitas famílias que passaram pelo campo voltaram ao estúdio dele para registrar filhos e netos.

A família na câmera

Archie Miyatake, o filho, cresceu dentro do campo e aprendeu o ofício com o pai. Assumiu o estúdio e manteve o acervo de negativos de Manzanar guardado e catalogado.

O estúdio continua com a família, hoje em San Gabriel, na região de Los Angeles, com Alan Miyatake, neto de Toyo, atrás da câmera.

Em 2008, o diretor Junichi Suzuki lançou Toyo's Camera, o documentário que contou a história da caixa de madeira a um público fora da comunidade japonesa-americana, com entrevistas de Archie e de ex-presos.

O pedido de desculpas

Em 1988, o presidente Ronald Reagan assinou o Civil Liberties Act (Lei das Liberdades Civis). A lei reconheceu o erro do encarceramento e pagou 20 mil dólares a cada sobrevivente.

As fotos de Miyatake entraram nas audiências públicas que antecederam a lei, como prova visual da vida atrás do arame.

A câmera clandestina virou peça de museu, e o campo virou sítio histórico.

O Congresso americano criou o Manzanar National Historic Site em 1992. O centro de visitantes, instalado no antigo auditório do campo, expõe uma réplica da caixa de madeira com a lente encaixada.

O retrato de Adams tem limite claro: mostra o rosto de Miyatake, mas nenhuma das fotos que ele fez. Essas ficam no acervo da família e nas exposições do sítio histórico.

A 1.200 metros de altitude, no vale do Owens, uma das oito torres de vigia foi reconstruída, e da base dela o visitante vê o monte Williamson do mesmo ângulo das fotos que Toyo Miyatake fez com a lente da mala.

 
 
 

Quiz da edição

Quando o diretor Ralph Merritt descobriu a câmera clandestina de Miyatake em Manzanar, que condição ele impôs para deixar o fotógrafo continuar?

AMiyatake só podia fotografar nos finais de semana
BToda foto revelada tinha que passar pela administração do campo
CUm funcionário branco tinha que apertar o obturador enquanto Miyatake compunha a cena
DMiyatake precisava anotar o nome de cada pessoa fotografada

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