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A foto do dia é um retrato de Toyo Miyatake feito por Ansel Adams em Manzanar, em 1943. Miyatake aparece de frente, em plano de busto, de terno e gravata, com o olhar firme na direção da lente do colega.
O fundo é claro e liso, sem barracão, sem torre e sem arame. Nada no quadro diz onde a foto foi feita, e só a legenda da Biblioteca do Congresso americano identifica o retratado como fotógrafo preso em Manzanar.
Adams chegou ao campo a convite do diretor Ralph Merritt, amigo dele dos tempos de montanhismo na Sierra Nevada. Fotografou presos no trabalho, na escola e em casa, e o retrato de Miyatake entrou na série que virou o livro Born Free and Equal (Nascidos livres e iguais), de 1944.
O fotógrafo de Little Tokyo
Toyo Miyatake nasceu em 1895 na província de Kagawa, no Japão, e emigrou para Los Angeles em 1909, para viver com o pai. Estudou fotografia com Harry K. Shigeta e abriu estúdio próprio em 1923, em Little Tokyo, o bairro japonês da cidade.
Era Issei, palavra japonesa para o imigrante de primeira geração, a quem a lei americana da época negava a cidadania. Fazia retratos de casamento, fotos de dança e trabalhos artísticos, e convivia com o fotógrafo Edward Weston.
A câmera montada no barracão
Em Manzanar, Miyatake guardou a lente e o suporte de chapas escondidos. Um amigo carpinteiro, também preso, construiu para ele uma caixa de madeira com sobras de obra, no tamanho exato para encaixar as duas peças.
O filme chegava aos poucos, trazido por conhecidos de fora, segundo o relato que a família repete até hoje. Miyatake fotografava cedo, antes da movimentação dos guardas, e revelava os negativos à noite.
A caixa não tinha visor de vidro nem obturador moderno. Para enquadrar, ele mirava pela lateral e calculava a distância de cabeça, um hábito de quem já tinha passado vinte anos atrás de câmeras de estúdio.
O primeiro acordo com a direção
Merritt descobriu a câmera. Ele não a confiscou. Deixou Miyatake fotografar o campo, com uma condição imposta pelas normas da época: um funcionário branco tinha de apertar o botão.
Miyatake escolhia o ângulo, ajustava o foco e a exposição, e esperava. O assistente só disparava o obturador, o mecanismo que abre a lente por uma fração de segundo.
A regra durou meses. Em vários negativos desse período, a composição é de Miyatake e o clique é de um funcionário da administração, e o arquivo da família credita todas as fotos a Toyo, porque a escolha de cada quadro era dele.
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A autoria era de Miyatake, mas o dedo no obturador pertencia a outro homem.
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A família guarda uma frase dele sobre o motivo de insistir, repetida no documentário Toyo's Camera (A câmera de Toyo), de Junichi Suzuki, lançado em 2008:
“Tenho a responsabilidade, como fotógrafo, de registrar a vida no campo para que isto nunca mais aconteça.”
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