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A Câmera de 10 Nanossegundos Diante da Bola de Fogo

A rapatronic de Harold Edgerton congelava a explosão em Nevada, e as pontas na base do clarão eram cabos de aço virando gás

Bola de fogo de um teste nuclear da série Tumbler-Snapper, em Nevada, com pontas brilhantes descendo da base ao longo dos cabos da torre

Tumbler-Snapper, Força Aérea dos EUA, 1952

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A 11 quilômetros da torre de aço, no deserto de Nevada, a luz de uma explosão atômica chega antes do som e antes do vento. Dali, um homem a olho nu veria só um clarão branco, sem forma nenhuma.

Estamos no campo de provas de Nevada, cerca de 100 quilômetros a noroeste de Las Vegas, na primavera de 1952. O governo americano detona ali a série Tumbler-Snapper, oito bombas entre abril e junho. Três delas explodem no alto de torres de 91 metros, presas ao chão por cabos de aço.

Nos abrigos distantes, enfileiradas, ficam caixas pretas compridas apontadas para a torre. São as câmeras rapatronic, nome encurtado do inglês Rapid Action Electronic (ação eletrônica rápida). Cada uma faz uma foto só, e a série inteira cobre a primeira fração de segundo da explosão.

A câmera saiu do laboratório de Harold Edgerton, professor do MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts) que tinha ficado famoso fotografando gotas de leite e balas de revólver com luz estroboscópica (lampejos curtíssimos e repetidos). Para a bomba, o lampejo não servia. A própria explosão já era a luz.

O problema virou outro: fechar a câmera rápido o bastante. Uma bola de fogo nuclear cresce dezenas de metros nos primeiros milésimos de segundo. Qualquer obturador mecânico, de lâmina ou cortina, borraria tudo.

A solução de Edgerton e dos sócios Kenneth Germeshausen e Herbert Grier, na empresa EG&G, foi um obturador sem peça móvel. A luz passava ou não passava conforme um pulso elétrico, e a janela aberta durava cerca de 10 nanossegundos (bilionésimos de segundo).

Uma dessas fotos, feita na série de 1952, abre esta edição. Ela mostra a bola de fogo com pontas finas espetadas na base, como raízes de luz. A seção I conta o que ela mostra e de onde vêm essas pontas.

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I  A Foto Histórica do Dia

As raízes de luz na base do clarão

A resposta de ontem

Quem refez as fotos do Sudário em 1931?

Foi o fotógrafo profissional Giuseppe Enrie, de Turim, na exposição do Sudário de maio de 1931. Com chapas ortocromáticas e luz controlada, ele fotografou o pano inteiro e o rosto de perto, e os negativos mostraram o mesmo retrato em positivo que Pia tinha visto em 1898.

A foto do topo mostra uma bomba da série Tumbler-Snapper menos de um milésimo de segundo depois da detonação. A bola de fogo ainda tem cerca de 20 metros de diâmetro e a superfície manchada, como casca de laranja vista de perto.

A torre já não existe na imagem. O aço virou gás dentro da esfera. Embaixo dela, porém, descem vários espinhos claros, retos, em ângulos diferentes, como se a bola de fogo tivesse pernas.

Os espinhos são os cabos

Cada ponta corresponde a um dos cabos de ancoragem (os estais, cabos de aço que seguravam a torre de pé). O primeiro clarão da explosão, rico em raios X e luz, atinge o cabo antes da onda de choque.

O aço absorve a radiação, esquenta e vaporiza ao longo do comprimento. O gás quente se expande rente ao cabo e corre à frente da bola de fogo, desenhando uma linha brilhante que a câmera congela.

O físico John Malik, do Laboratório Nacional de Los Alamos, estudou o efeito e o batizou de rope trick (truque da corda), em referência ao número de mágica indiano em que uma corda sobe sozinha no ar.

Como a câmera fechava tão rápido

A rapatronic tinha dois filtros polarizadores (vidros que só deixam passar luz vibrando numa direção) cruzados, um atrás do outro. Assim montados, eles bloqueavam toda a luz.

Entre os dois ficava uma célula de Faraday, um bloco de vidro dentro de uma bobina. Quando um pulso elétrico passava pela bobina, o campo magnético girava a luz o suficiente para atravessar o segundo filtro. Acabado o pulso, a câmera ficava cega de novo.

Uma câmera, uma foto

Como cada aparelho fazia um único quadro, a EG&G montava baterias de quatro a dez câmeras, cada uma programada para disparar num instante diferente. Juntas, as fotos formavam uma sequência do crescimento da bola de fogo.

A foto não mostra uma explosão parada: mostra o calor andando pelo aço mais rápido que o fogo.

Anos antes, o primeiro teste atômico rendeu a frase mais conhecida sobre a bomba. J. Robert Oppenheimer, diretor do laboratório de Los Alamos, lembrou o primeiro teste, em 1945, no documentário The Decision to Drop the Bomb, da rede NBC, em 1965:

“Lembrei do verso da escritura hindu, o Bhagavad Gita: agora me tornei a Morte, a destruidora de mundos.”

Oppenheimer viu a bola de fogo de Trinity sem forma, um clarão a 16 quilômetros. A rapatronic deu ao mesmo fenômeno contorno, textura e as pernas de aço.

 
 

II  O Que Ela Mudou de Verdade

O tamanho da bola revela a energia

O objetivo das fotos não era estético. Os engenheiros queriam saber quanta energia cada bomba tinha liberado, o chamado rendimento, medido em quilotons (o equivalente a mil toneladas de TNT).

A conta vinha da física das ondas de choque. Em 1950, o matemático britânico Geoffrey Ingram Taylor publicou na revista Proceedings of the Royal Society um estudo sobre a expansão de uma explosão muito intensa.

O cálculo de Taylor

Taylor mostrou que o raio da bola de fogo cresce numa proporção fixa com o tempo, ditada pela energia e pela densidade do ar. Sabendo o raio em dois ou três instantes, sai a energia.

Ele testou o método nas fotos do teste Trinity publicadas pela revista Life em 1947, que traziam uma escala em metros e a hora de cada quadro. Chegou a cerca de 17 quilotons, um número que o governo americano ainda tratava como segredo.

O valor oficial divulgado depois ficou perto de 20 quilotons. Em 2021, uma equipe de Los Alamos liderada por Hugh Selby revisou Trinity para 24,8 quilotons, num estudo publicado na revista Nuclear Technology.

Da foto ao rendimento

Com a rapatronic, o método virou rotina de campo:

1. A bateria de câmeras dispara em instantes conhecidos, marcados em microssegundos.

2. Cada negativo revela a bola de fogo num diâmetro diferente.

3. A distância até a torre converte o tamanho na imagem em metros reais.

4. Os pares de raio e tempo entram na equação de Taylor.

5. Sai o rendimento da bomba, conferido com os sensores de pressão espalhados pelo deserto.

A interferência dos cabos

Os espinhos dos cabos atrapalhavam a conta. Eles esticavam a borda inferior da bola de fogo e deixavam a medida do raio menos limpa. Malik e a equipe de Los Alamos estudaram o rope trick justamente para separar o efeito do cabo do crescimento real da explosão.

Os testes confirmaram a causa. Cabos pintados de escuro deixavam as pontas mais fortes, porque absorviam o calor com mais facilidade. Cabos tratados de outro jeito faziam as pontas sumirem.

O legado de Malik

O mesmo John Malik assinou em 1985 o relatório LA-8819 de Los Alamos, The Yields of the Hiroshima and Nagasaki Nuclear Explosions. Nele, a bomba de Hiroshima aparece com cerca de 15 quilotons e a de Nagasaki com cerca de 21, valores usados até hoje como referência.

Para chegar ali, Malik cruzou registros de pressão, de calor e fotografias de testes em Nevada. A câmera de Edgerton ajudou a medir, de trás para a frente, até as bombas de 1945, que nenhuma rapatronic tinha visto.

 

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NVIDIA's Founder Says Farmers Should Absolutely Use AI

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III  Depois da Foto

O fim dos testes no ar

Os testes atmosféricos americanos continuaram em Nevada e no Pacífico até 1962. Em 5 de agosto de 1963, Estados Unidos, União Soviética e Reino Unido assinaram em Moscou o Tratado de Proibição Parcial de Testes Nucleares, que proibia explosões no ar, no espaço e debaixo da água.

As bombas desceram para poços cavados no deserto. Sem bola de fogo visível, a rapatronic perdeu o assunto. As baterias de câmeras foram aposentadas, e os negativos ficaram em arquivos do governo, muitos deles classificados por décadas.

O fotógrafo do fundo do mar

Harold Edgerton voltou para o MIT e para o resto da carreira. Em 1964 fez a foto da bala atravessando uma maçã, uma das imagens científicas mais reproduzidas do século.

Ele também desenvolveu sonares e câmeras submarinas, trabalhou com o oceanógrafo francês Jacques Cousteau a bordo do navio Calypso e, em 1973, participou da equipe que localizou o naufrágio do encouraçado USS Monitor, da Guerra Civil americana, na costa da Carolina do Norte.

O Monitor tinha afundado numa tempestade na noite de 31 de dezembro de 1862, perto do cabo Hatteras. O sonar de varredura lateral, que Edgerton ajudou a criar, achou o casco virado no fundo, a uns 70 metros.

Na década de 1970, levou equipamento de sonar ao lago Ness, na Escócia, na busca pelo monstro. Não encontrou nada além de água fria e peixes.

A sala de aula até o fim

Edgerton seguiu dando aula até os últimos anos. Ele faleceu em 4 de janeiro de 1990, aos 86 anos, em Cambridge, no estado de Massachusetts, e o MIT mantém até hoje o Edgerton Center, dedicado ao ensino prático de ciência.

As fotos que voltaram

Com a abertura dos arquivos nucleares nas décadas seguintes, as imagens da rapatronic passaram ao domínio público, como toda obra produzida por funcionário do governo americano em serviço. Hoje estão no Wikimedia Commons, acessíveis a qualquer pessoa.

Uma tecnologia criada para medir bombas virou, décadas depois, imagem de livro escolar.

A foto dos espinhos é a mais conhecida da série, justamente pelo que parece errado nela. Quem a vê pela primeira vez costuma achar defeito do negativo ou efeito de lente.

Os espinhos na base da bola de fogo de 1952 eram os estais da torre de 91 metros, vaporizados um a um em bilionésimos de segundo, a 11 quilômetros da câmera. Malik e a equipe chegaram a eliminar as pontas mudando só a superfície do aço.

Fica a pergunta  ·  até amanhã

O que os técnicos passaram nos cabos para as pontas do clarão sumirem da foto?

 
 
Quiz da edição

No relatório LA-8819, de 1985, que valor John Malik calculou para o rendimento da bomba de Hiroshima?

A21 quilotons
B15 quilotons
C17 quilotons
D24,8 quilotons

Veja o ranking de quem mais acerta →

 
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