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A Cabine de 25 Centavos Tirou o Fotógrafo do Retrato

Em 1925, Anatol Josepho abriu na Broadway uma máquina de oito poses sem retratista e vendeu os direitos por 1 milhão de dólares

Fotografia da Agence Rol, 1927: Anatol Josepho sentado dentro da cabine do Photomaton, com a máquina aberta

Anatol Josepho na cabine, Agence Rol, 1927

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A 40 graus e 45 minutos de latitude norte, no número 1659 da Broadway, entre as ruas 51 e 52 de Manhattan, uma fila dobrava a esquina no outono de 1925. Da calçada, via-se uma vitrine acesa e, lá dentro, uma cortina fechada.

Atrás da cortina havia um banquinho e uma fenda para moeda. O cliente sentava, pagava 25 centavos e esperava a luz acender. Oito vezes o aparelho disparava, com poucos segundos de intervalo entre um clique e o seguinte.

Ninguém ajustava a pose, ninguém pedia um sorriso. A máquina fazia o retrato, passava o papel por banhos químicos e devolvia, perto de oito minutos depois, uma tira estreita com as oito poses ainda úmidas.

Até então, retrato pedia hora marcada no estúdio, um fotógrafo escondido atrás do pano preto e alguns dias de espera pela cópia. Na Broadway, bastavam uma moeda e a paciência da fila.

Nos seis primeiros meses, a cabine atendeu cerca de 280 mil pessoas. Casais entravam juntos, amigos se espremiam no banquinho, e quem chegava sozinho posava sem plateia nenhuma, talvez pela primeira vez na vida.

O inventor tinha 31 anos e desembarcara nos Estados Unidos dois anos antes, com pouco dinheiro e o projeto de uma máquina pensado na Europa. Em 1927, vendeu os direitos por 1 milhão de dólares, quantia que pôs o nome dele nos jornais do país inteiro.

A cabine mudou pouco desde então. O banquinho, a cortina e a tira vertical de poses empilhadas continuam nas estações de trem e nos shoppings, quase um século depois daquela fila.

A foto no topo saiu dessa época, feita por uma agência francesa. Ela mostra o inventor sentado dentro da própria cabine, com a máquina aberta. Para lê-la, o caminho começa pelo homem e pelo arquivo de Paris onde a chapa está guardada.

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I  A Foto Histórica do Dia

Um inventor sentado na própria máquina

A resposta de ontem

Quem identificou o texto budista dos painéis escondidos?

Foi o indólogo francês Sylvain Lévi. Em 1929, ele reconheceu nas cenas fotografadas o Mahakarmavibhanga, um sutra (texto doutrinário budista) sobre como cada ato traz sua consequência. Por causa dessa leitura, a base escondida de Borobudur passou a ser chamada de Karmawibhangga.

A foto mostra Anatol Josepho, inventor nascido em 1894 em Tomsk, na Sibéria, sentado dentro da cabine do Photomaton, a máquina de retrato automático criada por ele. A imagem é de 1927 e saiu da Agence Rol, agência fotográfica de Paris que abastecia os jornais franceses.

No Wikimedia Commons, o arquivo vem da Gallica, a biblioteca digital da Bibliothèque nationale de France (Biblioteca Nacional da França), e circula em domínio público. A legenda original, em francês, descreve a máquina como capaz de fotografar uma pessoa em oito poses diferentes e entregar a prova em oito minutos.

Quem era Josepho

Josepho deixou a Rússia ainda adolescente e foi estudar fotografia em Berlim. Trabalhou com câmeras na Europa durante a Primeira Guerra e os anos seguintes, e em 1923 cruzou o Atlântico com a ideia fixa de uma cabine capaz de fazer sozinha o trabalho do retratista.

Máquinas de retrato por moeda já tinham aparecido antes. Em 1889, na Exposição Universal de Paris, o francês T. E. Enjalbert apresentou um aparelho automático de ferrótipo (retrato gravado direto numa chapa fina de metal). Esses aparelhos davam defeito com frequência, entregavam imagem fraca e nenhum virou negócio duradouro.

Josepho atacou o ponto fraco com papel fotográfico e um circuito de banhos químicos montado dentro do próprio móvel. A tira saía revelada, fixada e lavada, pronta para guardar na carteira.

A Broadway serviu de vitrine para o teste. Teatros, cinemas e lojas mantinham a avenida cheia até tarde da noite, e uma cabine iluminada no térreo de um prédio comercial pegava o público na porta, sem precisar de anúncio.

Como a cabine funcionava

O cliente puxava a cortina, sentava no banquinho de altura regulável e inseria a moeda. Uma lâmpada forte acendia, e a câmera fazia oito exposições seguidas numa tira de papel, com alguns segundos entre uma e outra para a troca de pose.

Depois do último clique, o mecanismo levava o papel por uma sequência de tanques com revelador, fixador e água de lavagem. Em seguida, a tira secava e caía por uma abertura do lado de fora, onde o cliente esperava.

A cabine trocou o fotógrafo por uma moeda e oito minutos de química.

O que a foto mostra

Josepho aparece de terno claro, sentado no banquinho, de perfil para quem olha a imagem e com uma das mãos apoiada na borda da janela da câmera. Ele posa como cliente, olhando na direção da lente da própria invenção.

A metade direita da imagem mostra o que o cliente nunca via. Os painéis foram retirados, e aparecem os tanques marcados com as letras S e B, as mangueiras, o motor e a fiação que movia o papel de um banho para o outro.

A imagem guarda ainda um detalhe de bastidor. No alto e embaixo aparecem as tachinhas que prendiam a cópia na parede, e no rodapé está o número de catálogo da agência, Rol 118222. A chapa guardada em Paris é, portanto, a fotografia de uma fotografia.

 
 

II  O Que Ela Mudou de Verdade

O retratado assumiu a direção

A cabine cobrava 25 centavos de dólar pela tira, sem taxa extra pela cópia. O retrato deixou de depender de hora marcada, de roupa de domingo e de um profissional dando ordens.

A mudança maior estava atrás da cortina. Pela primeira vez, alguém podia se fotografar sem testemunha. Ninguém corrigia o queixo nem escolhia a melhor pose, e o cliente decidia sozinho o que fazer em cada um dos oito cliques.

As tiras guardadas em álbuns de família mostram o efeito. Muita gente posava séria na primeira foto e, nas seguintes, ria, virava o rosto, beijava o acompanhante ou fazia careta. O retrato de estúdio fixava uma pose; a tira fixava uma sequência de segundos.

Uma tira vertical

O formato também ficou. A tira estreita, com as poses empilhadas uma sobre a outra, nasceu da mecânica da máquina, que avançava o papel a cada exposição. As cabines de shopping e de festa ainda entregam o retrato nesse desenho.

O Photomaton servia ainda para documento. A foto pequena, de frente e com fundo neutro, cabia em carteira de identidade e em ficha de inscrição, e esse uso cresceu nas décadas seguintes, quando passaportes e crachás passaram a exigir retrato.

Atrás da cortina, o retratado virou o diretor da própria foto.

Um nome virou palavra

Depois da venda dos direitos, em 1927, os novos donos criaram a Photomaton Inc. e espalharam cabines por outras cidades americanas. A marca atravessou o oceano e chegou a Paris, onde as primeiras cabines já funcionavam em 1928.

Na França, o nome da empresa virou substantivo comum. Até hoje, o francês chama de photomaton qualquer cabine automática de retrato, e a empresa dona da marca ainda opera cabines em estações e centros comerciais do país.

O próprio Josepho saiu do negócio aos 33 anos. Seguiu inventando, registrou outras patentes nas décadas seguintes e viveu longe da máquina que o fez famoso até 1980, quando morreu aos 86 anos.

 

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III  Depois da Foto

Dos surrealistas à cabine de Warhol

A cabine seguiu sem o inventor e chegou cedo às mãos dos artistas. Em dezembro de 1929, a revista La Révolution surréaliste (A Revolução Surrealista), dirigida em Paris por André Breton, publicou uma montagem com retratos de Photomaton dos integrantes do grupo.

Os rostos aparecem de olhos fechados, em volta de um quadro de René Magritte. A tela traz a frase Je ne vois pas la cachée dans la forêt (Não vejo a escondida na floresta), com a figura de uma mulher nua ocupando o lugar da palavra que falta.

Para os surrealistas, a cabine tinha um atrativo próprio: o retrato saía de um processo automático, sem a mão de um artista escolhendo o instante. A máquina de Josepho entrava assim no debate sobre o acaso na criação.

A tira na arte

Em 1963, Andy Warhol levou a colecionadora Ethel Scull a cabines da Times Square, em Nova York, e fez dezenas de tiras com ela. Das fotos saiu Ethel Scull 36 Times (Ethel Scull 36 vezes), painel de serigrafias que hoje pertence ao Whitney Museum e ao Metropolitan Museum.

A cabine dava a Warhol o que o estúdio negava: a pose sem diretor, repetida e barata. A mesma lógica levou fotógrafos e artistas de várias gerações a usar a tira automática como ferramenta de trabalho.

As cabines de hoje trocaram os tanques por câmera digital e impressora, e o banho químico desapareceu da maioria delas. Algumas casas em Berlim, Paris e Nova York ainda mantêm cabines analógicas restauradas, com revelação em líquido, procuradas justamente pelo tempo de espera e pelo papel úmido.

A máquina feita para dispensar o retratista virou instrumento de artista.

Onde a foto está

A chapa da Agence Rol pertence ao acervo da Bibliothèque nationale de France, que guarda o arquivo da agência e o publicou na Gallica. O número 118222, escrito à mão no rodapé, é a referência dela no catálogo.

O registro informa só 1927 e Nova York. O dia da foto, o nome do fotógrafo da agência e o endereço da sessão não constam do catálogo, e a imagem segue, por esse motivo, creditada à Agence Rol, sem autor individual.

No número 1659 da Broadway, a 40 graus e 45 minutos de latitude norte, a cortina de 1925 sumiu, mas a tira de poses empilhadas que saía dali segue impressa em cabines do mundo inteiro. Josepho deixou o negócio com o cheque de um comprador famoso nos Estados Unidos.

Fica a pergunta  ·  até amanhã

Quem pagou 1 milhão de dólares pelos direitos do Photomaton em 1927?

 
 
Quiz da edição

Segundo o texto, quantas pessoas a cabine de Josepho atendeu nos seis primeiros meses, na Broadway?

A28 mil pessoas
B800 mil pessoas
C280 mil pessoas
D2,8 milhões de pessoas

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