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A Água no Lugar do Comissário
Em abril de 1937, quatro dirigentes soviéticos posaram na mureta do canal Moscou-Volga; três anos depois o retoque devolveu a cena com três
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Canal Moscou-Volga, autor não identificado, 1937
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A eclusa número 3 do canal Moscou-Volga fica em Iakhroma, a uns 55 quilômetros ao norte do Kremlin, num trecho em que a água corre dezenas de metros acima do leito natural do rio Moscou. De cima da mureta de concreto, em abril de 1937, dava para acompanhar a vala aberta até a curva seguinte: 128 quilômetros de canal cavado desde 1932 para levar água do Volga até a capital soviética, que vinha racionando o abastecimento havia anos.
No dia 22 daquele mês, uma delegação do Kremlin percorreu a margem para inspecionar a obra antes da abertura oficial, marcada para julho. Iossif Stálin caminhava de capote escuro e boné. Ao lado dele iam Viatcheslav Molotov, chefe do governo, Kliment Vorochilov, comissário da Defesa, e Nikolai Iejov, comissário do Interior, o homem que comandava a NKVD, a polícia política soviética, desde setembro de 1936.
Um fotógrafo oficial, cujo nome não ficou registrado nos créditos, encostou os quatro na mureta e fez o retrato com o canal atrás. A imagem saiu na imprensa soviética, entrou nos álbuns comemorativos da obra e foi reproduzida em livros escolares como registro do governo visitando a maior escavação do país. A legenda impressa nomeava os quatro visitantes na ordem em que apareciam, sem indicar quem havia pedido a parada nem quanto tempo a inspeção durou.
Três anos depois, a mesma cena voltou à mesa de trabalho, agora num laboratório de retoque. Iejov havia sido afastado da NKVD em novembro de 1938, preso em abril de 1939 e fuzilado em 4 de fevereiro de 1940. A partir dali, as reproduções oficiais passaram a mostrar três homens na mureta e, no lugar do quarto, uma faixa de água lisa que ninguém explicou.
A primeira seção examina o enquadramento original, quem ocupa cada posição na mureta e o que o retocador teve de inventar para fechar o vazio deixado à direita.
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I A Foto Histórica do Dia
Quatro homens no parapeito
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A fotografia enquadra os quatro de meio corpo, alinhados contra a mureta baixa que separa o passeio da água. Stálin aparece no centro, com a mão direita apoiada no concreto. Molotov está à esquerda dele, de chapéu e sobretudo claro. Vorochilov, fardado, fica um passo atrás. Na ponta direita do quadro, encostado quase no limite da moldura, está Iejov, de quepe e capote, o mais baixo do grupo por uma cabeça inteira.
Atrás dos quatro, o canal ocupa o terço superior da imagem, com a superfície parada e a margem oposta desfocada pela distância. Não há multidão, faixa nem tribuna. A cena foi montada como registro de trabalho: dirigentes em visita técnica, nenhum gesto de discurso.
O que a cena não mostra
A vala que aparece atrás dos quatro foi escavada por presos. A mão de obra vinha do Dmitlag, campo do sistema penal soviético criado em 1932 especificamente para a obra do canal e desmontado logo depois da inauguração. Os boletins internos da construção chamavam os detentos de construtores, e os álbuns oficiais fotografavam o maquinário, as comportas e as autoridades, nunca os alojamentos.
Iejov chegou àquela margem no auge da função. Três meses depois da visita, em 30 de julho de 1937, ele assinou a ordem operacional nº 00447, o documento que fixou cotas numéricas de prisão e de fuzilamento por região soviética e deu a forma administrativa ao período que a historiografia chama de Grande Terror. O nome dele ficou colado à campanha a ponto de o vocabulário corrente da época usar o termo iejovchina, algo como a era de Iejov, para descrever a campanha.
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O homem encostado na borda direita do quadro assinava, naquele mesmo ano, a papelada que definia quantas pessoas cada província soviética deveria prender, e a posição dele na moldura viria a ser o detalhe mais útil ao retocador.
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Enquanto durou o prestígio, a fotografia serviu de material de propaganda comum. Ela apareceu em jornal, em revista ilustrada e em coletânea de aniversário da obra, recortada em formatos diferentes conforme a largura disponível na página, e o diagramador cortava primeiro pela ponta direita quando faltava espaço.
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A eliminação física dos adversários políticos de Stálin pela polícia secreta foi seguida de perto pela eliminação deles de qualquer existência em imagem.
David King, The Commissar Vanishes, 1997
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II O Que Ela Mudou de Verdade
O apagador oficial
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Depois de fevereiro de 1940, a mureta do canal apareceu vazia na ponta direita. O retocador cobriu a figura de Iejov, estendeu a linha do concreto até a borda da moldura e preencheu o espaço restante com a mesma superfície de água que já ocupava o fundo. Quem não conhecesse a versão anterior via três dirigentes numa composição folgada, sem nenhuma marca de corte.
O trabalho era manual e demorado. O operador pintava sobre uma cópia em papel com aerógrafo, a pistola de ar que aplica tinta em névoa fina, fechava as junções com guache e pincel, e depois refotografava a cópia pintada para gerar um negativo novo. A partir desse segundo negativo saíam as tiragens que iam para gráfica. O resultado passava bem em impressão de jornal, que perde detalhe no papel áspero, e denunciava a intervenção só na comparação lado a lado com a versão antiga.
Como o apagamento virava rotina
A imagem retocada não era uma peça isolada de artesanato. A Glavlit, direção central de censura do Estado soviético, mandava circulares às bibliotecas com listas de nomes a suprimir, e o bibliotecário recebia instrução de cobrir o verbete com tinta, arrancar a página ou colar por cima uma folha substituta. O caso mais citado é o da Grande Enciclopédia Soviética, que em 1954 enviou aos assinantes páginas novas sobre o estreito de Bering com a orientação explícita de recortar e substituir o verbete anterior, dedicado a Lavrenti Béria.
O acervo que permitiu reconstituir a prática foi reunido pelo pesquisador britânico David King, que passou décadas garimpando cópias, álbuns e provas de gráfica em Moscou e publicou o material em The Commissar Vanishes, livro de 1997 que põe versão original e versão retocada na mesma página. A coleção dele foi adquirida pela Tate, em Londres, em 2016, e catalogada com o nome do colecionador.
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O retoque não escondeu o crime, ele o documentou: cada faixa de água pintada sobre um rosto virou registro datável de quem havia caído em desgraça e quando.
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O efeito prático dentro do país foi desigual. Cópias antigas continuaram em gaveta, em álbum de família e em arquivo de redação, porque nenhuma campanha alcança todo papel impresso. Guardar uma delas, porém, passou a ser perigoso: a posse do retrato de um condenado servia de indício em interrogatório, e muita gente resolveu o problema queimando a foto ou recortando a figura com tesoura em casa.
A prática também não se limitou a Iejov. O mesmo tratamento caiu sobre Leon Trótski em fotos de comício, sobre comissários fuzilados nos anos 1930 e sobre Béria depois de 1953, o que transformou o conjunto de imagens oficiais soviéticas num material instável, revisado a cada mudança de vento no Politburo.
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